40 Pereira, Maria Leonor de Almeida (2011) “Coabitar: um modelo de presença na obra de Helena Almeida”
imagem transmite a “identificación entre su ser y el ser de su trabajo, entre ser y hacer” (Carlos, 2008: 11). A inscrição do corpo remete para o fazer da pintura como criação e ser criado. Neste fazer, o corpo e o nome que o identifica deixam de ser próprios, abdicam de si na tomada de posse da obra. Helena Almeida, assim como a palavra ‘habitada,’ nomeia uma propriedade da obra à qual a artista cede a imagem do corpo, reforçando a transparência do que lá está, sempre, indefeso, aparecendo no que se esconde numa espécie de presença-ausente. Referindo-se à Idade do Homem de Michel Leiris, Susan Sontag diz que “Leiris precisa de sentir, quando escreve, o equivalente à consciência que o toureiro tem de se arriscar a uma cornada.” Como? “A resposta de Leiris é esta: expondo-se, não se defendendo; (…) colocando-se a si – a sua própria pessoa – na linha de fogo” (2004: 94-95). Marina Abramović, a artista que em 1974 propôs ao público que fizesse com ela o que quisesse (Rhythm 0), em 2010, aquando da retrospectiva da sua obra realizada pelo MoMA, esteve presente (The Artist Is Present) durante os três meses de duração da exposição, aparentemente ocupando o lugar e cumprindo a função de uma entre as restantes obras expostas – o ‘working body’ ou o ‘readymade’ no sentido proposto por Boris Groys em Marx After Duchamp, or The Artist’s Two Bodies (2010). No entanto, o espectro de actuação desta presença pouco tem a ver com o conceito de objecto no espaço mas sim no tempo, não o tempo cronometrado mas o tempo de Borges. O que sobressai é um outro corpo – um terceiro-corpo –, não tanto aquele que está, podendo ser interpretado como ‘produto comercializável e industrializado,’ quanto aquele que é, o ser em permanência (n)a obra. É a carga emocional latente nesta presença e não a dimensão intelectual de uma afirmação o que o corpo da artista, que não é um objecto indiferenciado mas a expressão mais íntima da sua individualidade, comunica na sua quase imobilidade. O que este corpo manifesta é uma identidade, que é mais do que a sua visibilidade; de igual modo, mais do que um olhar, é o conhecimento próprio de uma entrega singular, de todo o sensível de um corpo que o rosto comunica, o que a obra reclama do observador. O percurso de Marina Abramović – marcado por este sentido de presença – e o de Helena Almeida – marcado pelo sentido de habitar – convergem neste terceiro-corpo que é, no entremeio entre o ideal e o material, a tentativa de resposta à questão de Nuno Júdice. Habitar é este convite que se abre na ‘inclusão de si’: significa integrar na obra a categoria da diferença entendida a partir da própria identidade de autor criado; mas também significa explorar o potencial relacional deste outro-interior ao universo da obra e, portanto, propriedade desta, quando, avançando como factor humano de proximidade entre a obra e o público, se propõe mediar a negociação