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:ESTÚDIO 3

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grande e deu-me, deu-me a influência que é visível e que vem desde os Cegos de Madrid até à Maria da Fonte (Pomar, comunicação pessoal, 2005).

Segundo Pomar, muitas vezes os estudos são preferíveis às ilustrações, por serem mais espontâneos. Observa-se, quer nos estudos, quer nas ilustrações, a mesma sensação de segurança, de que cada desenho foi feito de um jacto, sem hesitações. Contudo, os estudos põem a nu o processo artístico, o caminho percorrido, como é o caso, por exemplo, dos desenhos da série do sonho de Pedro. Os primeiros esboços são evidentemente mais trabalhados que os últimos. Nestes há um despojamento do traço, a eliminação de pormenores, que denota a evolução do processo artístico ao longo do período em que foram desenvolvidos. Um processo de síntese, resultado de um olhar que selecciona e elimina o excesso. Cada desenho representa a aventura da descoberta, do risco, da investigação, da procura, o prazer de percorrer o caminho. Observado como constante devir, contínua metamorfose, em que a teimosia é mais persistente que a habilidade, o acto de criação, fundamentalmente no que ao desenho diz respeito, é praticado como um acto de riscar que, em Guerra e Paz, equiparou desenho e caligrafia. Referências Antunes, João Lobo (2003) Júlio Pomar Desenhos para Guerra e Paz de Tolstoi. Lisboa: Arte Mágica Editores. Júlio Pomar: Outros Desenhos para Guerra e Paz de Tolstoi (2003). Catálogo. Lisboa: Galeria João Esteves de Oliveira.

Júlio Pomar: Desenhos para Guerra e Paz de Tolstoi (2003). Catálogo. Lisboa: Fundação Arpad Szénes-Vieira da Silva.

Contactar o autor: dilarp@netcabo.pt

Revista :Estúdio. ISSN 1647-6158. Vol.2 (3):382-387.

Conclusão

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Especialmente nas ilustrações que representam as cenas de guerra, o observador sente imediatamente a invocação de Goya (Figuras 2 e 3). Nas características plásticas do desenho, no movimento das formas, no modo como as figuras tombam no chão, como se enrolam, nas posturas de dor e terror, é inegável a presença de um universo goyesco. É o início da definição de novos rumos na obra de Júlio Pomar. O interesse pelo movimento e um corte com o realismo, tal como era entendido na altura, definiram uma relação do pintor com realidades próximas de um universo mais imaginativo e do mundo da ficção literária. Características que se desenvolvem, depois, noutras obras, onde está patente o uso de uma pincelada menos comprometida com a representação da realidade, muito mais inventiva e ficcionada. Essa característica do movimento e do registo do gesto marcará, posteriormente, quer os seus quadros, quer futuras ilustrações.


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