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:ESTÚDIO 3

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386 Pereira, Maria Dilar da Conceição (2011) “Ilustração da Guerra e Paz – Júlio Pomar”

[…] curiosamente, muitas vezes o melhor, o desenho mais sensível, impressivo, mais... o que nos dá mais prazer a ver, o nos dá mais que pensar não é o último, é antes do último (Pomar, comunicação pessoal, 2005). Não há lugar a hesitações e o que acontece é uma espécie de combinação entre aquilo que o autor prevê, ou intenção, e aquilo que vai surgindo, uma espécie de imprevisto, que é o que faz com que cada desenho seja outra “possibilidade de uma nova etapa e de uma nova pesquisa, ou de... outra maneira de sentir” (Pomar, comunicação pessoal, 2005). Através dessa síntese pela qual regista o movimento intrínseco e extrínseco das formas, Pomar dá rosto às personagens de Tolstoi, percorrendo, com uma linha vigorosa e inebriante, a narrativa que transporta o leitor para essa profusão de incontáveis episódios de guerra, amor, morte e, finalmente, paz. Tolstoi recorreu à repetição de inúmeros elementos fisionómicos particulares, que permitem ao leitor identificar os personagens no decorrer da narrativa. Esses elementos, como o buço da princesa Maria, a graciosidade de Natasha, ou os óculos de Pedro, são pistas que possibilitam a criação de figuras específicas. Pomar utilizou estas indicações para retratar as personagens, embora aquilo que maior atenção lhe suscitou, tenha sido o registo do movimento de massas (preocupação que será ensaiada posteriormente na tela Maria da Fonte (1957), saída directamente dos desenhos para O Romance de Camilo, datados do mesmo período). Esse movimento interessou-lhe muito mais que o tratamento individual das personagens, mais que o registo de fisionomias. Embora haja grande fidelidade no retrato, a sua curiosidade incidiu no que está para além disso, no ir ao encontro do que não está lá: Descobrir esses caudais ou descobrir essas torrentes, o ir ao encontro das forças que vão para além da identificação de um detalhe ou outro, […], acho que é [...] uma lei do meu trabalho (Pomar, comunicação pessoal, 2005). Evocação, mais do que descrição, elucubrações que fornecem a natureza de cada personagem, o seu retrato, um retrato vivo e verdadeiro. Tomando o processo artístico como forma de pesquisa e investigação, os inúmeros estudos executados definem uma procura contínua no sentido de uma representação mais sintética, harmoniosa, ritmada e coerente, que irá ser repercutida na obra pictórica do artista, de que é exemplo a tela Cegos de Madrid (1957-59). Esta é uma obra charneira no percurso de Pomar, que rompe com um certo ‘realismo, ou naturalismo’ (Pomar, comunicação pessoal, 2005). É o resultado do encontro com Goya no início dos anos 1950, que havia impressionado bastante o pintor: [...] quando eu vi os quadros a primeira vez ao vivo, o choque foi realmente muito


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