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:ESTÚDIO 3

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384 Pereira, Maria Dilar da Conceição (2011) “Ilustração da Guerra e Paz – Júlio Pomar”

Guerra e Paz foi também adaptada ao cinema, numa obra do realizador King Vidor, com estreia em 1956, em Nova York e, em 1957, em Portugal. Embora exista uma coincidência com a data da realização das ilustrações, o pintor não teve qualquer influência vinda do cinema. As suas fontes, como o próprio indicou, foram a pintura francesa da época, especialmente, de Géricault ou de Delacroix, Hokusaï e as estampas japonesas, que haviam chegado à Europa no século XIX. Em relação a fontes teóricas, no que ao desenho diz respeito, Pomar refere aqueles autores que um ‘candidato a artista deve ler’ (Pomar, comunicação pessoal, 2005), como os tratados de Leonardo da Vinci, de Cennino Cennini, ou os tratados japoneses que, na época, lhe suscitaram uma certa curiosidade em termos de ‘conhecimento relacional’ (Pomar, 2005). Afirma que estas leituras, como testemunhos escritos de uma experiência, foram para si muito importantes na medida em que não teve mestres directos: “tudo o que tive como professores eram extremamente medíocres, […]. Não eram pr’á fome que a gente tinha” (Pomar, comunicação pessoal, 2005). Os estudos e ilustrações apresentam uma espontaneidade estonteante, em parte dada pelo instrumento com que foram executados, o pincel chinês, mas também, resultado de um entendimento do trabalho artístico como pesquisa constante, um fazer aturado que a prática do desenho exige (Figura 1). Executadas a tinta-da-china e com o pincel chinês (inventado por japoneses) trazido de Paris, as ilustrações foram o resultado do entendimento do desenho como uma caligrafia Como afirmou, o instrumento possui uma relação intrínseca com toda a prática do desenho e da escrita, e possibilitou o efeito de síntese desejado, onde a linha e a ausência dela, são partes integrantes e igualmente importantes, tal como na escrita. Os desenhos acontecem sem possibilidade de correcção, neles não pode haver hesitações ou erros. Uma linha é escrita do princípio ao fim, sem interrupções, tendo o artista que começar tantas vezes quantas as necessárias, até conseguir o desenho que considera mais verdadeiro, o que mais se aproxima na aparência de ter sido executado de um só fôlego: Havia que preparar cada desenho como um trapezista prepara o seu voo. A execução tem que ser perfeita, e experimenta-se o exercício ou faz-se o percurso tantas vezes quantas o necessário. É por isso que existem muitas versões dos desenhos, […] (Pomar, comunicação pessoal, 2005). Os estudos são repetidos até que aconteça a síntese que satisfaça o seu autor. No caminho, é destruída uma parte desses desenhos, só começando a ser guardados quando a ideia se torna mais precisa, quando o todo se harmoniza. Para que essa harmonia aconteça é necessário que, a uma observação atenta, e a um fazer rigoroso, se junte uma pequena imperfeição, algo que surge no momento da execução, e que faz com que esse desenho seja o que dá mais prazer, considerado a melhor versão:


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