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:ESTÚDIO 3

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Nas pinturas, desenhos e aquarelas de Nery há quase sempre um corpo que trespassa o outro, o masculino e o feminino que em sua diafaneidade revelamse como um só corpo. Assim, os temas do modernismo mantiveram-se afastados, salvo de maneira crítica, como pode ser observado na obra Auto-Retrato, de 1927 (Fig. 4). Observa-se que o autor se representa no centro da tela (Fig. 4), quase de corpo inteiro. Está sentado e leva a mão direita em direção à paisagem do subúrbio carioca, conferindo lugar de destaque a mulata, que de braços estendidos, apresenta as tradicionais casas coloridas. A palmeira, o mar azul e o Pão de Açúcar ao fundo, realçam a paisagem do Rio de Janeiro. À esquerda do artista, em desequilíbrio, a representação das arvores e dos prédios parisienses, confirmam o diferenciado eixo da cena, que se confirma através da inclinação da torre Eiffel. A mão esquerda do artista descansa sobre a perna enquanto dois vultos homem/mulher parecem influenciar o pintor. Aqui Nery aparece figurado como alguém que se percebe dividido, enfrentando um impasse, talvez ideológico, em sua relação com os dois mundos distintos. Diálogos possíveis da obra de Ismael Neves com a Arte Contemporânea Uma profunda subjetividade e abertura para o inconsciente se mostram nas obras de Nery, mas não apenas isso, principalmente nos desenhos e aquarelas, se percebe a confirmação do ideário do artista referente ao gênero, sexualidade e a morte - sua própria morte - (conforme as figuras 5, 6 respectivamente).

Revista :Estúdio. ISSN 1647-6158. Vol.2 (3): 368-373.

Figura 4 Ismael Nery. Auto-Retrato, 1927, óleo sobre tela. 129 x 84 cm. Coleção Domingos Giobbi (São Paulo, SP). Reprodução Fotográfica Romulo Fialdini/Itaú Cultural


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