362 Chagas, Luciana Beatriz (2011) “O labirinto grotesco de Manoel Galdino”
uma de suas primeiras criações autônomas, feita após uma ‘crise criativa.’ Referindo-se a seu primo, que era padeiro e estava sempre sem dinheiro, Galdino modela a figura de um personagem que tem uma mão sobre a cabeça e a outra estendida, pedindo dinheiro emprestado. Juntamente com o Mané Pãozeiro, Galdino criou o seguinte poema, que descreve o processo criativo de maneira extremamente lúcida: SE CRIA ASSIM Quem cria tem que dormir/ Pensar bem no passado/ De tudo ser bem lembrado/ Tirar o juízo como louco/ Ter a voz como um pipoco/ Ter o corpo com energia/ Ler o escudo do dia/ Conservar uma oração/ Fazer sua oração/ Ao deus da poesia./ Deve dormir muito cedo/ Muito mais cedo acordar/ Muito mais tarde sonhar/ Muito afoito e menos medo/ Muito honesto com segredo/ Muito menos guardar/ Muito mais revelar/ Pra ter mais soberania/ Muito pouca covardia/ Não dormir pra sonhar. (Extraído de folheto distribuído aos visitantes no Memorial Mestre Galdino) Conclusão
Na escultura de Manoel Galdino encontramos elementos formais do grotesco. Pois “o grotesco é o mundo alheado (tornado estranho) (...) Para pertencer a ele, é preciso que aquilo que nos era conhecido e familiar se revele, de repente, estranho e sinistro. (...) O repentino e a surpresa são partes essenciais do grotesco” (Kayser, 2009: 159). Mas a escultura de Galdino não deve ser considerada apavorante ou macabra. Suas monstruosidades têm uma faceta cômica ou caricatural, elemento incorporado à categoria estética do grotesco. O grotesco foi designado como sogni dei pittori no século XVI (Kayser: 20), referindo-se àquilo que não era criado a partir da observação, mas da imaginação. O caráter onírico está presente tanto no grotesco quanto no surrealismo. O próprio Manoel Galdino referia-se sempre ao sonho quando explicava suas obras. Sua obra, apesar de apresentar uma conexão forte com o sonho, nada tem de surrealista. O surrealismo solicita ao espectador uma interpretação semântica para seus enigmas, enquanto no grotesco a comunicação é icônica, labiríntica, visual. Referências Bachelard, Gaston (2003) A Terra e os Devaneios do repouso. São Paulo: Martins Fontes. ISBN: 85-336-1775-5 Hocke, Gustav R. (1974) Maneirismo: O Mundo como Labirinto. São Paulo: Perspectiva. ISBN 978-85-273-0371-2
Kayser, Wolfgang (2009) O Grotesco. São Paulo: Perspectiva. ISBN: 978-85-273-0514-3 Contactar o autor: lbchagas@yahoo.com.br