3. Os ‘Bichos Feios’ de Manoel Galdino
Manoel Galdino modelava em argila peças tridimensionais, que posteriormente são queimadas em baixa temperatura dentro de fornos a lenha típicos da região (Figura 5). Após a modelagem e a secagem, iniciava a queima dentro do forno num total de dez horas de queima e quatro para o resfriamento. Sua relação com o processo criativo, apesar de calcada na ideia da ‘iluminação divina,’ na prática era bem objetiva: Galdino era contrário à réplica de obras de outros artistas ou da reprodução de uma mesma obra, prática recorrente no Alto do Moura. Sustentava que o artista necessitava desenvolver uma linguagem própria. O exemplo mais emblemático é a peça Mané Pãozeiro, (Figura 6) considerada
Revista :Estúdio. ISSN 1647-6158. Vol.2 (3): 356-362.
3.1 Processo criativo
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Das esculturas de Galdino, foram escolhidas algumas que serão aqui analisadas. O critério de escolha obedece à própria morfologia da obra, ou seja, peças que apresentam características marcantes relacionadas ao objetivo deste artigo. Seres da Natureza (Figura 2) é figurativa, apesar de os seres nela representados não estarem próximos da representação realista. Parecem-nos animais fantásticos, híbridos ou monstros. Segundo Hocke, o monstro é encarado como a antítese do ‘bom gosto,’ criação da natureza ‘mágica.’ (Hocke, 1974: 146,114). A escultura é verticalizada, frontalizada e simétrica, pressupõe um ponto de vista único. A cabeça é de um animal bizarro, com orelhas de rato, nariz de porco, grandes olhos, dentes pontiagudos e língua de cobra que, num esgar escancarado, mantém uma das mãos dentro da boca, de onde sai uma cabeça humana. Seu corpo é coberto de uma textura de escamas. A criatura possui duas cabeças, uma em cima e uma embaixo, além de dois pares de braços e de pernas, colocados ao longo do corpo. Tudo nessa criatura é duplo, traduzindo-se num estado de ambivalência. Parecem duas criaturas conectadas entre si, ou duas fases de uma mesma criatura: bípede (o topo) e quadrúpede (a base). O Guará, (Figura 3), mostra uma pequena criatura de constituição quimérica, com asas nas costas, chifres na cabeça numa postura insolente e debochada. No Brasil, Guará é uma espécie de lobo. Existe também uma ave com este nome, porém não se consegue identificar traços do referencial na escultura. Parece-nos que Galdino nomeava suas obras sem critérios narrativos, ou de similaridade ou analogia. Em O Símbolo de Salomão, (Figura 4), avistamos inicialmente quatro cabeças fundidas, para em seguida identificar as duas cabeças humanas do eixo lateral, como objetos carregados por uma criatura tentacular de expressão tristonha. “Cabeças e membros de animais e seres fabulosos, desfigurados fantasticamente(…), interpenetram-se e podem fazer brotar em qualquer parte gavinhas, inchaços ou novos membros do corpo” (Kayser, 2009: 22). Esta descrição de gravuras de grotescos do século XVII pode ser aplicada tal e qual a essas obras.