Skip to main content

:ESTÚDIO 3

Page 36

35 Revista :Estúdio. ISSN 1647-6158. Vol.2 (3): 34-35.

Com a gravura de Ilda Reis, do que se trata é de extrair, da matéria – orgânica ou inorgânica –, aquilo que, estando lá desde sempre, carece de um agente – criador – para se tornar visível. Mas nem só de visibilidade se trata: antes, também, de dar vida àquilo que nunca a teve (matéria inorgânica) ou que, tendo-a tido, a perdeu (matéria orgânica); algo que o uso exuberante da cor só vem acentuar. Este processo de tornar visível o invisível, que é no fundo aquilo em que consiste a demiurgia da arte, torna-se mais patente em artes como a xilogravura ou a escultura. E, por maioria de razão, numa escultura que, como a de Pablo Tardáguila, trabalha com pedras nobres e duras como o mármore e o granito. Como refere Rodríguez Trigueros, partindo de um comentário do próprio artista, “es como si la piedra estuviese viva y te fuese guiando para sacar la escultura que se esconde dentro.” Voltemos a Hegel. De acordo com o filósofo, o espírito objectivo e o espírito absoluto não existem em abstracto. O Espírito do Mundo (Weltgeist) encarna nos diversos povos, como Espírito do Povo (Wolksgeist) – havendo sempre, em cada período histórico, um povo que se destaca de todos os outros, e que é o verdadeiro porta-estandarte do Espírito universal - como foi o caso da Grécia na Antiguidade Clássica ou da França na Idade Moderna (Hegel, 1955). Mas o que constitui, verdadeiramente, a arte de um povo? Em que medida é que, por exemplo, a música de Lopes Graça (por Ana Assis) é mais “portuguesa” do que a música promovida como tal pelo Estado Novo e, em particular, pelo SNI? E como pode a música, a mas abstracta de todas as artes, ser não só “política” como politicamente progressista? Com base no seu talento e num imenso labor etnográfico, Lopes Graça procurou dar resposta a essas questões conciliando as raízes populares portuguesas com o universalismo expressionista de um Berg ou de um Schoenberg. Num outro contexto, mas ainda no âmbito da problemática da conciliação entre o universal e o particular, José Geraldo de Souza procurou recriar a música sacra a partir da folcmúsica brasileira. De forma análoga, também a pintura “moderna” de Hugo Adami, analisada por Ivana Paim, pôs a ênfase na afirmação da identidade de um país (o Brasil) e da sua linguagem plástica no domínio do universal. Da referência que aqui fazemos a Hegel não está ausente uma contradição: não é Hegel o filósofo do “fim da história”? E não implicaria, um tal fim, a homogeneização da cultura – reduzida, enfim, à poesia romântica, no campo da arte, ao cristianismo, no campo da religião, ao idealismo hegeliano, no campo da filosofia? Essa contradição existe. Mas ela só prova, também, que como diz algures o próprio Hegel, a coruja de Minerva só pode levantar voo ao anoitecer. E o dia que vivemos parece, ainda, muito longe do fim.


Turn static files into dynamic content formats.

Create a flipbook