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:ESTÚDIO 3

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358 Chagas, Luciana Beatriz (2011) “O labirinto grotesco de Manoel Galdino”

“O elemento paranóico do maneirismo(...) procura no monstro e no monstruoso uma ‘encarnação’ demasiadamente grande da deformação.” (Hocke, 1974: 18, 145) Em Bruegel (o Velho) e Bosch, por exemplo, a essência do grotesco se manifesta através de representações do sobrenatural e do demoníaco. A partir do Romantismo, o grotesco adquire um caráter sinistro, mas com a vinculação do grotesco com a commedia dell’arte, surge a tendência para igualá-lo com o burlesco e o cômico (Kayser, 2009: 26, 27). Nas manifestações das artes visuais do século XX, o Surrealismo é imediatamente associado ao grotesco. 1.1 O Surrealismo

O surrealismo tem origem na literatura e mesmo suas manifestações visuais carregam consigo elementos narrativos e metafóricos. A proposta do surrealismo, segundo André Breton, estava relacionada com as teses de Freud. Suas primeiras obras tridimensionais, os 'objetos surrealistas' de Dalí, Man Ray e Giacometti, entre outros, eram produto da ideia de 'acaso objetivo,' e se propunham a “estimular as projeções inconscientes do observador,” a partir de associações díspares entre diferentes objetos, criando metáforas (Krauss, 1998: 130-145). Existem alguns aspectos no surrealismo que o aproximam à ideia do grotesco, principalmente a pintura de De Chirico, Dalí e Tanguy, além das ‘fantasias grotescas’ de Ensor . Nas obras produzidas em torno do Manifesto Surrealista, de André Breton – em especial a pintura metafísica – “atinge-se o estranhamento (…) pela união do heterogêneo,” porém, “pode faltar inteiramente caráter ameaçador, horror, elemento abissal – e com isto conteúdos dos mais essenciais do grotesco” (Kayser, 2009: 141). 2. O Labirinto

A metáfora do labirinto nos vem à tona no universo imagético de Galdino. O artista refere-se constantemente a sonhos como fonte de idéias para suas peças. O 'pesadelo do labirinto,’ como descrito por Bachelard, e sua 'dimensão angustiada,’ relacionam-se com algumas das características básicas do grotesco e das obras observadas neste artigo. O labirinto, nas civilizações antigas, representa uma “metáfora 'unificadora' para tudo aquilo que o mundo apresenta de previsível e imprevisível” (apud Hocke, 1974: 167). A imagem do labirinto está relacionada ao subterrâneo e também ao onírico. Bachelard especifíca o arquétipo do labirinto como possuindo uma 'dimensão angustiada,’ pois liga o indivíduo sonhador com suas impressões profundas. O autor descreve os 'sonhos labirínticos' como aqueles nos quais o caminhar inconsciente revive a 'situação típica do estar perdido' e nos quais anda-se com dificuldade (Bachelard, 2003: 161-164).


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