O processo de criação de Carrapa do Cavaquinho que é basicamente intuitivo encontra o imaginário instituinte, a criação de algo que introduz o novo. Ao adotar a experimentação como uma porta aberta que provoca a liberdade de entrar e sair, ir e vir, transitando em culturas distintas revela a multiculturalidade. Sua obra é um perene diálogo entre a tradicional batida do choro e do samba com a complexa composição contemporânea para o cavaquinho, como tradução das diversas Brasilidades. Está em andamento a escrita de um livro que aprofunda o universo de relações que a multiculturalidade devolve aos sujeitos em um mundo em constantes mudanças.
Revista :Estúdio. ISSN 1647-6158. Vol.2 (3): 348-352.
Conclusão
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Assim, o compositor ressignifica suas referências ao fundir, inovadoramente, distintas tradições regionais. Siribakstaxtakiobiobiobiô (1998) é o título de uma música, que segundo o autor, faz referência onomatopéica ao som do cavaco ao executar a frase inicial da composição. A melodia começa com um Lá 6 (referência dó 3), em uma escala pentatônica de G descendente, percorrendo toda tessitura do instrumento, findando em um ré 3 no bordão do cavaquinho. Tal salto é executado com uma rítmica que lembra o título da peça e possui alto teor técnico. Harmonicamente, a primeira parte consiste nos acordes em Gmaior e C7. A parte B se estrutura em uma sucessão de acordes diminutos. Consequentemente, há um improviso cromático rubato que o autor alude a um free jazz. A rítmica consiste em um samba que é caracterizado em um 2/4 com acentuação no segundo tempo. Uma característica marcante da peça em relação a densidade de informações em uma curtíssima duração de tempo: 1’12. A melodia da música Viva o céu de Brasília (1998) possui em sua base a escala diminuta com variações e acentuações de síncopes, propiciando o deslocamento do pulso original da rítmica do frevo. Em contraponto a uma melodia bem angular com saltos, é uma alusão do compositor às matizes do céu do Planalto Central Brasileiro, mais especificamente na região da Capital Federal. Por possuir um ritmo bem quebrado cheio de interrupções e pausas inusitadas, pode-se inferir uma fusão bem livre e particular de estilos em uma abordagem interpretativa. Esse aspecto atribui uma sonoridade e uma abordagem técnica inovadora ao cavaquinho, cuja função tradicional é de centrar a harmonia do samba e do choro. Isso faz com que a função do instrumento ganhe novas dimensões em uma peça musical. A forma ABABC atribui elementos de inteligibilidade de seu discurso atípico na execução de um gênero tão tradicional quanto o frevo. As peças analisadas dão notícias do percurso artista-sujeito, revelando o imaginário como criação autêntica, originado no sujeito que é por natureza um sem-fundo.