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:ESTÚDIO 3

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Carrapa do Cavaquinho evoca tramas, nas quais podemos pensar a unidade e a diversidade, o global e o local, o sujeito enraizado em sua cultura, as interações e retroações que favoreçam as perspectivas para o debate sobre seu jeito único de fazer música. Sua ambiência musical é a coexistência de várias culturas. As influências mais marcantes são Jacob do Bandolim, Hermeto Pascoal e Waldir Azevedo. O artista se dedica ao choro e ao samba, mas admite outras afiliações estéticas sob a influência de Jimi Hendrix e Armandinho. Essa combinação de orientações estéticas polarizadas é o que acentua aspectos poéticos diferenciados em sua obra e lhe conferem o caráter de ousadia e inovação. As composições refletem a atmosfera multicultural vivida em Brasília. É um denso repertório de emoções, que revela as múltiplas faces brasileiras, co-existindo com a cidade, forjando identidades. Assim, é preciso considerar as questões sobre alteridade, pois, esta co-constrói as identidades dos sujeitos. A relação música e alteridade é um debate que vem ganhando destaque no campo musical. A alteridade promove a constante afinação entre presente passado e futuro nas dimensões individual e coletiva entre culturas distintas. A recursiva produção de si mesmo, mas sempre com o outro, fortalecendo a compreensão de subjetividade, redefinindo-a a partir dos conceitos de alteridade e ‘toda polissemia que essa palavra comporta’ (Cambria, 2008: 69). A abertura ao outro favorece o encontro do sujeito com o mundo e implica na interiorização que produz conhecimento, como resultado da tensão dialética entre os dois pólos: o mundo externo e o mundo interno do sujeito em uma recursividade constante. 2. Quatro cordas em diálogo

Na linha de pensamento de que música não se reduz a fazer som, e sim, música vai desde a intenção e a mobilização para criar sons, passa pela indústria de fabricação, distribuição e propaganda. ‘Música é, assim, um recurso social que, em certos momentos, vai ser utilizado a outros recursos sociais’ (Seeger, 2008: 20). Em Carrapa do Cavaquinho encontramos o processo completo, ele compõe,

Revista :Estúdio. ISSN 1647-6158. Vol.2 (3): 348-352.

1. O constituir-se artista

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chega à Brasília em 1974 e adota a cidade como paisagem sonora. Ao se profissionalizar, assume-se Carrapa do Cavaquinho e redesenha com sons e gestos sua trajetória sujeito-artísta. A metodologia descreve a recursividade nos processos de auto-co-formação dos sujeitos e se fundamenta na ‘transversalidade’ (Barbier, 2002), que sinaliza a autonomia na leitura de mundo como prática da realidade e implica em reconhecer nosso lugar no contexto coletivo. Foram feitas várias entrevistas com o artista, traçando o seu memorial com o objetivo de lapidar os elementos essenciais à escrita do texto.


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