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:ESTÚDIO 3

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34 Serra, J. Paulo (2011) “Identidades” Revista :Estúdio. ISSN 1647-6158. Vol.2 (3): 34-35.

Identidades Identities J. Paulo Serra Conselho editorial

Numa época em que, para parafrasearmos um dito de Hegel, a globalização económica e cultural calçou há muito as suas botas de sete léguas, impõe-se voltar à interrogação sobre a cultura e a arte: o que é a cultura? Qual o lugar e o papel da arte no contexto da cultura? É mais ou menos conhecida a resposta de Hegel a estas questões: a cultura é o Espírito objectivado, incluindo-se em tal objectivação não só o “espírito objectivo” propriamente dito mas também o “espírito absoluto. Este último, que é a forma mais alta do espírito – enquanto espírito consciente de si próprio, isto é, livre – envolve três esferas: a arte, ou absoluto sob a forma de intuição sensível; a religião, ou absoluto sob a forma de representação e sentimento; e a filosofia, ou absoluto sob a forma de conceito” (Hegel, 1995). O que nos interessa, nesta concepção de Hegel, é a sua visão de que, longe de ser a “obra” de um “autor,” a arte é, essencialmente, uma mediação entre uma ausência e uma presença. Apesar da sua oposição a Hegel, faria sentido associar aqui, à arte, aquilo a que Lévinas chama “o traço:” um signo que não reenvia para uma significação positiva mas para uma ausência (Levinas, 1982: 199). A “morte do autor” anunciada nos anos sessenta do século XX por autores como Barthes (1968) ou Foucault (1969) não representa, no fundo, senão a conclusão lógica desta visão que Hegel expusera há muito. Mas a mediação própria da arte nunca é uma mediação fácil e transparente. A (a)presentificação do ausente exige, por um lado, uma escuta e, por outro lado, um trabalho de materialização dessa escuta. É esta questão de uma presença que reenvia para uma ausência que está em causa, precisamente, na forma como Leonor Pereira vê a obra de Helena Almeida. A pintura de Helena Almeida – como a proposta estética de Marina Abramović, também mencionada no mesmo texto - mostra como o criador só pode estar presente na sua criação negando-se como autor e tornando presente, mediante essa negação, aquilo que o transcende. E, ao negar-se, ao tornar presente a transcendência com/em que se nega, o artista permite que o observador/espectador se coloque no seu lugar, tornando-se, ele próprio, um criador – numa lógica que se assemelha à da “semiose ilimitada” de que nos fala Peirce.


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