334 Cápua, Carla Maria Buffo de (2011) “Humberto Espíndola e a construção da identidade cultural de Mato Grosso do Sul, Brasil”
A composição resulta numa forma quase circular, a cauda do boi ligada à cauda do jacaré, a boca deste último quase tocando a cabeça do boi. O fundo, trabalhado através de faixas curvas coloridas reforça a sensação visual do movimento giratório executado pelos animais, num ambiente de água azul e de terra em forma de arena tauromáquica. Os motivos do desenho kadiwéu são utilizados pelo artista de uma maneira diferente na obra vista na Figura 4. Agora, não se vê mais os ícones como peças de cerâmica, mas como animais vivos, cujos couros mostram, contudo, cores e desenhos dessa etnia. Tanto o boi como o cavalo parecem estar alegres, brincando sobre um solo desenhado com os mesmos motivos. Nesta composição, a luta entre os Índios e os Brancos não é mais vista, mas sim uma integração total entre os personagens e o ambiente. ‘A herança guaikuru’ a qual o artista se referiu anteriormente, foi absorvida pela contemporaneidade, transformando-se em um elemento estético e cultural indissociável do Mato Grosso do Sul. Na década de 90, paralelamente às pinturas, Humberto produziu gravuras elaboradas digitalmente, trabalhando sobre a tela do computador procurando efeitos que não são produzidos apenas pelos programas, mas igualmente pela mão do artista que utiliza o mouse e desenha com ele. Essas gravuras mostram grande riqueza gráfica e cromática, como pode ser visto na Figura 5, onde as formas vigorosas dos animais se fundem com os motivos dos desenhos kadiwéu num enorme turbilhão de energia cósmica. As escadas kadiwéu confirmam esta idéia de passagem de um mundo a outro, reforçando a idéia de que os elementos estéticos desse povo estão no espaço alimentando a sensibilidade artística contemporânea. Conclusão
Há muito tempo Humberto Espíndola não trabalha mais por fases, mas com um repertório desenvolvido ao longo de 40 anos de carreira, que ele revê, atualiza, faz novas versões e recria continuamente. Utilizando a estilização ou a deformação da imagem como recurso plástico, Humberto se apropria das volutas, espirais, gregas, linhas quebradas e curvas dos desenhos kadiwéu para compor, além dos ícones, o espaço que os envolve, e nos transmite a sensação que os elementos que compõe o universo estão em equilíbrio. Segundo o artista, ele “pinça as coisas no inconsciente coletivo e as trás do lado invisível para o lado visível,” e neste aspecto, acreditamos que a obra de Humberto Espíndola explora e expõe o universo cultural de Mato Grosso do Sul com total domínio e segurança. Referências
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Figueiredo, Aline (1979) Artes Plásticas no Centro-Oeste. Cuiabá: UFMT/MACP.
carladecapua@gmail.com