331 Revista :Estúdio. ISSN 1647-6158. Vol.2 (3): 329-334.
universo kadiwéu e de seus antepassados Guaikuru. Em entrevista a mim concedida em 24/03/99, Humberto afirma que considera os motivos dos desenhos feitos na cerâmica, nos couros, na pintura corporal, como uma herança cultural guaikuru de uma estética autêntica que pode ser utilizada como uma ferramenta pelos artistas contemporâneos. Para ele, embora a maioria desses motivos, a voluta, a espiral, as gregas, existam em quase todas as civilizações, a maneira com que os Guaikuru/Kadiwéu os utilizam e os ordenam é muito específica, ela possui suas próprias características e revela a sensibilidade plástica desse povo. Humberto afirma também que esses elementos estéticos particulares desta região e deste povo se encontram no espaço, eles continuam a existir apesar da extinção dos antigos Guaikuru, e de certa maneira, esses elementos são sentidos (percebidos) pelos artistas não indígenas, segundo a sensibilidade de cada um. Desta maneira, Espíndola começou em 1980 a pintar pequenos bois como se eles fossem peças de cerâmica e os chamou de ícones. Aos poucos o artista aumentou seu repertório de imagens, pintando, como se fossem ícones, tatus, galinhas, jacarés e outros animais da vida cotidiana dos índios. Na Figura 1, observa-se um tatu pintado como uma peça de cerâmica kadiwéu, estática, ocupando o centro do espaço visual. O fundo, por sua vez, é trabalhado por meio de manchas de cor dispostas entre os mesmos motivos ornamentais utilizados pelas ceramistas desta etnia. Estas manchas, que vão do branco até o preto, passando pelas cores terrosas e pelas cores frias, são pintadas com pinceladas rápidas e leves, e parecem estar em movimento, contrastando com a rigidez do ícone. Elas parecem significar o fogo à esquerda, uma terra ovalada embaixo, água (voluta), os céus e montanhas, os elementos do universo, levados pelo sopro do vento, numa cosmovisão xamanista. Na tela vista na Figura 2, o artista compôs uma imagem híbrida, feita de ícones-jacarés com motivos kadiwéu que se integram, através das volutas e de algumas áreas coloridas, às representações naturalistas de bois. O fundo, tratado com grandes formas geométricas retangulares e com uma escada diagonal à direita, serve de contraponto ao entrelaçamento de formas que se misturam e se agitam no primeiro plano. Com esta imagem o artista estabelece uma relação bem estreita entre as duas grandes facções que constituíram o estado de Mato Grosso do Sul: as culturas indígenas, extintas ou vivas e os criadores de gado; estes, muitas vezes responsáveis pelo extermínio dos primeiros, e outras vezes, participantes do processo de mestiçagem que caracteriza uma grande parte da população. Outra situação particular pode ser observada na Figura 3, mostrando o afrontamento entre os Brancos, colonizadores e fazendeiros, representados pelo boi branco e preto, e as populações indígenas, representadas pelo jacaré decorado como uma cerâmica kadiwéu. O boi e o jacaré se olham fixamente, agitam as patas, as caudas, e o jacaré, por sua vez, mostra os dentes.