330 Cápua, Carla Maria Buffo de (2011) “Humberto Espíndola e a construção da identidade cultural de Mato Grosso do Sul, Brasil”
de uma expressão plástica regional que afirma uma identidade artística e cultural para o estado. Humberto Espíndola, bacharel em jornalismo e pintor brasileiro, nasceu em 1943 em Campo Grande, no estado de MS, e desde 1967 desenvolve um trabalho que projetou o Brasil Central no cenário artístico nacional e internacional. Destacamos aqui sua participação na XI Bienal Internacional de São Paulo em 1971, e na XXXVI Bienal de Veneza em 1972, como representante do país. Humberto criou um universo temático e formal a partir da relação entre o boi (pecus) e o dinheiro (pecúnia) que foi descrito pela crítica de arte Aline Figueiredo (1979), mostrando o boi como a força econômica e social desta região do país. Ele é o criador da “bovinocultura,” tema onde a imagem do boi é tomada como metáfora para contar simbolicamente a história do MS de maneira sarcástica e crítica. Desenvolvimento
Para uma melhor compreensão do assunto, faz-se necessário um breve panorama do contexto histórico e cultural do MS antes que se comece a falar do artista e de sua obra. De uma maneira geral, a arte contemporânea incentiva a utilização dos traços culturais regionais, seja através da temática ou dos materiais empregados para a confecção da obra de arte com o intuito de conseguir uma expressão artística diferenciada em relação a outras regiões. No caso específico de Mato Grosso do Sul, estado criado em 1977, procura-se uma expressão própria, diferente dos principais eixos culturais do Brasil, localizados nos estados de São Paulo e Rio de Janeiro. A população de Campo Grande, a capital do estado, é heterogênea, constituída por pessoas vindas dos diversos estados do país, por pessoas que aqui moram há várias gerações e por um grande número de índios já aculturados. Pode-se afirmar que essa mistura resultou numa sociedade híbrida cujas manifestações artísticas possuem características regionalistas muito fortes e cujos artistas, em sua maioria, têm como objetivo a criação de uma expressão que revele uma identidade própria, diferente das outras regiões brasileiras. A presença das culturas indígenas no MS, embora desconhecidas ou ignoradas por uma grande parte da população, oferece aos artistas uma variedade de motivos formais e/ou temáticos para a construção de seus trabalhos. Nesse sentido, a idéia de antropofagia, desenvolvida originalmente por Oswald de Andrade em 1928, pode ser aqui utilizada enquanto um conceito estético e cultural da arte brasileira. Do nosso ponto de vista, o fato dos artistas sul-mato-grosssenses se apropriarem dos padrões de desenho indígenas ou mesmo da figura dos próprios índios para em seguida os transformar e recriar em suas obras, revela e exemplifica este conceito. Em 1980, Humberto penetrou no universo indígena, mais especificamente no