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Gea
Gonçalves, Luís Jorge (2011) “Gea" Revista :Estúdio. ISSN 1647-6158. Vol.2 (3): 316-317.
Gea
Luís Jorge Gonçalves conselho editorial
A Terra, a bela, ergue-se, De regaço vasto, ela que é firme base De todas as coisas. E da bela Terra brotou O Céu estrelado, igual a si mesmo, Para a cobrir totalmente e para ser A morada eterna dos bem-aventurados deuses —Hesíodo, Teogonia - O Trabalho e Dias Gea foi na mitologia grega a Mãe Terra, a Ordem, que gerou Urano, o Pai Céu, nascendo depois do Caos e representando,por isso,a Ordem após o Caos. Brahmã, no panteão hindu, é o deus criador que impôs a Ordem ao Caos. Khonvum, entre os Dogão do Mali, é a divindade que ordenou a criação da terra e do céu. Os egípcios entendiam que a terra tinha sido criada como um monte que emergia das águas do Caos original, Isfet, e a essência da sua civilização estava em evitar que as forças do Caos voltassem a dominar a Ordem e que o equilíbrio se rompesse. A interrogação científica permitiu-nos através do cálculo e da observação olhar de outra forma para o Cosmos. Hipátia de Alexandria, Kepler, Copérnico, Galileu iniciaram um caminho que nos levou hoje, em última análise, a confrontar-nos com a nossa exiguidade, num Universo de escala e forças avassaladoras. Mas a nossa Gea, ou seja, a nossa Mãe Terra, foi vista como resultado da Ordem estabelecida após o Caos. Essa Ordem foi o equilíbrio entre o dia e a noite, entre o Sol e a Lua, entre a seca e a abundância de água, entre as estações do ano. A arte representava esse equilíbrio, mostrava a Ordem, mas… desde o século XIX, com a Revolução Industrial, que esse equilíbrio se tem vindo a desfazer. Demorámos muitas dezenas de anos a ler os sinais… a Ordem podia dar origem ao Caos através da nossa interferência na Gea, na Terra Mãe, na Natureza. Os artistas do Land Art procuraram retirar a arte do museu e transpô-la para a paisagem, como um acto criativo, as suas motivações não eram ecológicas. Hoje, a intervenção é uma reflexão sobre a nossa existência na natureza (Denis-Morel, 2010). A arte é filosofia transformada em imagens (Kosuth, 1969). O artista hoje interroga-se e intervém, apelando contra a indiferença. O artista torna-se também um activista contra o Caos.