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todas as suas experiências, descobertas e memórias são impressas até que se dispersam por completo no mapa principal. A ausência de Rosalina torna-a personagem presente, como se o corpo invisível se tornasse visível a partir da visão de quem olha para essa figura ausente. De notar que da ausência-presença de Rosalina partem todas as narrativas, que se interpenetram ou que originam cada vez mais bifurcações. Esta sucessão de discursos é um meio para construir novas simulações. Mais do que o livro, o filme constrói quadros da e na própria história que, para além de transmitirem a visão de Agustina e de incluírem as suas narrativas na imagem filmada, acabam por dar vida a um novo objecto e, assim, a uma nova forma de fragmentação das histórias já contadas. Daí que a percepção da ausência de uma realidade se torne mais clara no filme. Ao ver-se materializado o que foi lido, a noção da transparência de Rosalina ganha dimensões que a fazem assumir as proporções de um objecto que é reproduzível até ao infinito. É por isso que se transforma Emília/Rosalina numa Judite castradora que põe fim à realidade una e dá lugar a uma quantidade de projectos que, ao serem observados mais de perto, nos permitem acompanhar uma diversidade imensa de outras realidades dispersas e desordenadas. Conclusão
De forma a sintetizar e a reforçar o que no artigo nos parece de maior interesse, podemos dizer que a recontextualização de narrativa(s) é o que gera e, em simultâneo, o que resulta de um processo de fragmentação do sujeito e do distanciamento do real que lhe é inerente. Outro aspecto importante do que aqui
Revista :Estúdio. ISSN 1647-6158. Vol.2 (3): 304-308.
Figura 1 Fotograma de A Corte do Norte, de João Botelho (2009).