306 Martins, Ana Carolina (2011) “A Corte do Norte: Identidade e Ausência.”
morte subtil e sempre conjurada” (1991: 123). Não podemos, portanto, descurar a hipótese de serem duplo uma da outra devido à particularidade de Rosalina ter sido Emília antes de esta ser Rosalina. É também por isto que as duas se unem na Judite de Caravaggio, forçando aqui mais um novo caminho narrativo. A figura de Judite, representada por Emília no teatro, é a figura-chave do assassinato de Holofernes, da castração do homem e da criação. Como Judite, também Emília e Rosalina castram os amantes. Todavia, elas são sobretudo, e como temos vindo a reconhecer, castradoras da realidade, circunstância que deixamos em aberto para ser desenvolvida no próximo capítulo. 2. Cartografia(s)
Visto que se fala em realidade, ou ausência de, é altura de nos focarmos numa outra abordagem acerca de uma outra forma de desaparecimento, aquela que tem o seu cerne na repetição. A visão do simulacro é reforçada por Botelho quando opta por que todas as personagens centrais femininas com ligação a Rosalina sejam representadas pela mesma actriz (Ana Moreira), confrontando o espectador com uma infinitude de mulheres cujo olhar sobre o dito desaparecimento vai ser motivo de uma sucessão de novas realidades e de uma ‘despersonalização da presença’ (Dumas, 2002: 77) já patente na obra de Agustina. Esta opção funciona, também ela, como uma forma de narrativa, visto que esse agrupamento de corpos idênticos simboliza uma história comum, destacando a função narrativa de cada uma das personagens. O corpo é, portanto, aqui traduzido como um mero invólucro da identidade. A semelhança física das personagens representadas por Ana Moreira (Rosalina, Sissi, Rosamund, Águeda e Emília) reflecte a permanência do mistério, a perpetuação da memória e a resultante ‘destemporalização do passado’ (Dumas, 2002: 24) (Figura 1). A estrutura cíclica da obra evidencia a ideia de um movimento perpétuo, um estado em que o tempo parece imobilizar-se, conferindo a todo o objecto literário e fílmico aqui em causa a percepção de um estado permanente de duração. O que vai traduzir esta impossibilidade de conclusão são os vários discursos que surgem a partir da narrativa comum, inclusive o de Gramina Serena, filha de Rosamund, sobre a qual pesa o símbolo do infinito, pois é o último simulacro de Rosalina a que temos acesso. As perspectivas pessoais da história base são fragmentos que deslocam constantemente o centro da narrativa, conferindo-lhe um movimento temporal que oscila entre o passado e o presente. Este movimento faz repetir o desaparecimento de Rosalina até à exaustão, cada vez mais fragmentado e ameaçador do todo da personagem e do romance (Dumas, 2002: 73). Apreendemos, então, que do excesso de repetição surge a ausência. Ou seja, cada uma das personagens representadas pela actriz é provida de uma geografia íntima própria, onde