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:ESTÚDIO 3

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tinuidade, para chegar, por fim, à ideia de que uma sucessão de fragmentos pode ser uma ponte para novas construções.

Revista :Estúdio. ISSN 1647-6158. Vol.2 (3): 304-308.

A Corte do Norte é a história de um desaparecimento. Esse desaparecimento foi delineado por Agustina Bessa-Luís e materializado por João Botelho. O que há de fascinante neste desaparecimento é que ele acaba por ser fonte de eternidade, no sentido em que vai permanecer um enigma ao longo de gerações. Não existindo um confronto directo com uma morte real, o desaparecimento deixa marcas. Na esteira de Baudrillard, podemos dizer que este desaparecimento conduz a uma ‘continuidade do nada’ (1996: 23), a qual será o motor para a criação infinita de narrativas que convergem numa estética do inacabado. Quem desaparece nesta obra é Rosalina de Barros, baronesa de Madalena do Mar, a Boal de Cheiro e que em tempos fora a actriz Emília de Sousa. No fundo, é o desaparecimento de um simulacro. A descrição de um processo de transformação identitária inicia-se com o encontro de Rosalina e Sissi, a Imperatriz da Áustria. Apercebendo-se da semelhança física das duas, Rosalina entra num processo de simulação, querendo tornar-se outra. Este processo transforma-se numa viagem interior que culmina com o seu próprio desaparecimento. Este é um processo emocional que dispõe de uma dinâmica inerente ao que o sujeito está a experienciar. O próprio conceito de É-motion, segundo Collot, é ilustrativo deste processo: “Comme son nomme l’indique, c’est un mouvement, qui fait sortir de soi le sujet qui l’éprouve. Elle s’extériorise par des manifestations physiques et s’exprime par une modification du rapport au monde” (1997: 11). Rosalina encontrou na Outra a possibilidade de reconfigurar o Eu, transportou-se para outra realidade e deixou-se envolver por uma experiência transdimensional que a encaminhou a uma identidade simbólica dotada de configurações próprias. Esta identidade faz parte de um processo de emancipação de si própria que passa pelo desvinculo da sua maneira de estar. Por este motivo, vamos também assistir a uma mudança de espaço. Rosalina retira-se para a casa da Corte do Norte para ficar como que numa incubadora, a fermentar o seu desaparecimento e o consequente (re)nascimento de Emília de Sousa. Este evento, porém, não trata apenas a transição de um Eu para um Outro, mas do desdobramento do Eu no Mesmo (Baudrillard, 1991). Nesta transição de espaço, assistimos no filme a algo que não conseguimos aceder tão facilmente no livro. Através de um aperto de mão entre Gaspar de Barros, marido de Rosalina e João Sanha, ex-amante de Emília, podemos ver a união de Rosalina com Emília. Esta é uma união entre o eu e o seu duplo, o qual, segundo Baudrillard, é uma “figura imaginária […] que faz com que seja ao mesmo tempo ele próprio e nunca se pareça consigo, que o persegue como uma

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1. O desaparecimento


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