No poema Primeiro esboço de uma mão Francis Ponge apresenta de modo muito claro a plasticidade da mão: O homem tem as suas bielas, as suas charruas. E a sua mão para os trabalhos de rigor. Pá e pinça, croque, remo. Tenaz carnuda, torno. Quando uma faz de torno, a outra faz de tenaz. É também esta cadela que por tudo e por nada se deita de costas para nos mostrar o ventre: palma oferecida, a mão estendida. Servindo para agarrar ou para dar a mão, a mão para dar ou agarrar (Ponge, 1996: 75). A mão e o corpo, todo o corpo, empreendem a exigência de cada objecto, são ensinados por ele a acertar o lugar do olhar, da respiração, a inclinação do corpo. Ora, a mão tem de facto protagonismo na acção de desenhar; nela convergem todas as forças do corpo que entretanto se transforma numa espécie de mão-corpo-olho, mão-corpo-pele, mão-corpo-boca, mão-corpo-ouvido e que por isso é também mão-corpo-acção. Dito de outro modo, a mão que escreve, que desenha, que age, não é apenas dispositivo que produz a inscrição, uma parte do corpo que realiza a acção. Ela própria é já inscrição e acção, dado todo o corpo desaparecer para dar lugar, tão somente, à linha, mancha, cor, movimento. Em I am here, o corpo pára porque é sombra, voa porque é pó, planifica-se porque é mancha impressa na folha branca, mascara-se, por fim, e é borrão negro. É o desenho transformado em dança. Referências Gil, José (2005) «Sem Título» Escritos sobre arte e artistas. Lisboa: Relógio D’Água. ISBN: 972-708-833-3 Hatherly, Ana (1994) Volúpsia. Lisboa, Quimera Editores. ISBN: 972-589-041-8 I am here. João Fiadeiro (2004) Lisboa: Centro Cultural de Belém.ISBN: 972-8176-91-0 Ponge, Francis (1996) Alguns Poemas. Lisboa: Edições Cotovia. ISBN: 972-8028-56-3
Tournier, Michel (1992) Sexta-Feira ou os Limbos do Pacífico. Lisboa: Relógio D’Água. ISBN: 972-708-168-1
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Revista :Estúdio. ISSN 1647-6158. Vol.2 (3): 298-303.
Conclusão
303
pelo mundo, ele olha para as coisas porque as coisas o cativam e nesse momento o homem perde toda a relação do espaço em que se encontra, do tempo a passar, ele desaparece para dar lugar ao instrumento dos instrumentos: o corpo. O corpo que desbrava a terra, cava e cultiva, caça, dança, constrói ferramentas, canta, desenha, pinta, escreve; é o corpo todo que age em cada gesto.