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:ESTÚDIO 3

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300 Batel, Joana Maria Pimentel (2011) “Negro Agudo”

do desenho, o corpo e o pigmento. A partir daí trata-se de recompor as figuras. João Fiadeiro volta então ao seu lugar de sombra. Volta sempre. Volta na luz clara do foco, porque durante a 'noite' o bailarino perde a sua sombra e não estando vinculado a ela pode fugir para dançar pelo espaço. Acontece aqui, porém, numa fina tensão, senão mesmo uma fusão, do corpo dançante e do corpo desenhador, pois os movimentos que o bailarino executa, mesmo que o corpo flutue pela graça da dança, é ainda um corpo grave que deixará traçado no chão branco o caminho dos pés. Essa fusão indistinta prolonga-se ainda no som amplificado da respiração do bailarino. O que é que isto quer dizer? Helena Almeida (não podemos esquecer que I am here parte da obra da pintora) produziu durante os anos de 78 e 79 um conjunto de obras a que chamou Sente-me, Ouve-me, Vê-me, e nelas compôs as diferentes situação em contextos suspeitos. Os três títulos dão expressão ao apelo da artista, como se ouvíssemos directamente dela o pedido para nos deixarmos guiar por ela. Ela diz Sente-me, e nós vemos que as suas mão atadas deparam-se com objectos do ofício: o pincel, a tesoura, a caneta e a faca; diz: Ouve-me, e vemos dezasseis fotografias de um grande plano de metade do seu rosto e onde lemos, na palavra inscrita sobre o rebordo da sua boca, o chamamento inaudível para a escuta; diz Vê-me, e um som seco traz à memória a imagem do lápis a arranhar o papel. A peça de João Fiadeiro inicia ao som de Vê-me e prolonga-se no escuro (no decorrer do espectáculo) com a respiração cada vez mais ruidosa e sofrida, sugestionando a imagem do esforço cada vez mais intenso e do corpo do bailarino cada vez mais presente. Mas à medida que Fiadeiro vai dançando na sua própria sombra, vai espalhando o pigmento pelos bordos (Figura 2), vai permitindo ao pigmento “fugir da sombra” (Pontbriand, 2004: 34). Marcas dos pés, manchas arrastadas, encrespadas, velozes começam, a cada sequência na escuridão, a sair da figura negra. São rastos da dança, imagem dos movimentos do bailarino. Esse é um dos paradoxos que habita a peça I am here: o rasto dá lugar ao rasto. As sombras em geral tem essa qualidade especial de ser indício da presença de algo; na relação luz-sombra dá-se a visibilidade de um corpo, no entanto, ela tem a negrura do vazio sideral. Ao negro é imputado o oco, o vazio, o vácuo, da caverna, do poço, mas, curiosamente, é no vazio do branco “que o negro assinala a presença.” No espaço do desenho o negro faz a imagem enquanto o branco é o espaço de ausência, é o “vazio primordial” (Gil, 2005: 268) onde se acumulam os esforços, as energias, que se oferecem ao desenhador; é um espaço intensivo, onde o negro é indício, vestígio, apontamento. A segunda parte da coreografia inicia com o corte literal do espaço anteriormente de ‘atelier,’ fazendo elevar do chão o desenho até este adquirir uma verticalidade pictórica (Figura 3). Entretanto, o pigmento em excesso escorre para o sopé do desenho. Segue-se outro corte, desta feita com a folha do desenho onde a figura negra jaz. A caixa branca está, assim, desfeita e o bailarino ocupa, agora,


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