Um negrume
Revista :Estúdio. ISSN 1647-6158. Vol.2 (3): 298-303.
Em 2003, o coreógrafo português João Fiadeiro apresentou-nos a peça I am here (Figura 1). Ela começa com o bailarino de costas para o público e iluminado por um potente foco de luz que projecta atrás de si a sua sombra negra, alongada e imensa, enquanto toda a sala se encontra em penumbra. A imagem permanece durante largos minutos até a luz enfraquecer dando lugar à escuridão. A negrura ecoa sons duros, secos que sugerem o arrepio da ponta de um lápis na superfície do papel. Trata-se da obra Vê-me da artista Helena Almeida, que a peça I am here evoca. De repente acende-se e apaga-se uma luz branca, rápida. Segue-se mais um momento negro até que se acendem as luzes brancas do cenário. Uma longa tira de papel cenário serve de caixa branca, o espaço que o bailarino tem para dançar. Fiadeiro sai do lugar onde estava para ir desenhar na parede em frente a si a imagem captada aquando do flash de luz. Parte sem levar consigo a sua sombra, ficando esta presa ao chão, ao desenho daquela presença que já lá não está. A sombra “ficou sozinha” (Fiadeiro, 2004: 19). A sombra de Fiadeiro permanece, transformando-se, desta feita, em desenho. A figura tinge a superfície branca com pigmento negro; estendida no chão, ela sustenta o espaço de atelier, delimitado pelo papel cenário, onde o bailarino repetidamente ensaia diferentes movimentos. Depois de cada movimento, o bailarino retoma a posição inicial. Após a luz se apagar, inicia de novo a dança, espalhando o pó preto para lá da forma humana e originando o aparecimento de outros rastos. “A sombra tem sempre uma forma, a do corpo que a deita” (Ponge, 1996: 99). A longa figura negra de sombra que João Fiadeiro, imóvel diante do forte raio de luz, deixa atrás de de si, coloca-nos perante um corpo concentrado na sua imobilidade, concentrado naquela figura de sombra pois qualquer movimento poderia denunciar a realidade de que a sombra era feita. Na peça I am here o desenho vai acontecendo, não apenas por meio da mão, mas pelo despedido corpo feito desenho. A imobilidade do corpo é o corpo-desenho, o corpo próprio tornado mancha negra. Quando momentos depois, logo após o instante fotográfico assinalado por um clarão, Fiadeiro sai do seu lugar e da sua imobilidade, o bailarino transforma-se em corpo-dança. A peça parece construir-se entre estes dois actores: aquele que desenha e aquele que dança; temos os gestos da dança e os
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o poeta é uma sombra um perfil um desaparecimento mas sobretudo a despedida mão feita poema (Ana Hatherly, 1994)