Gouveia, Ana Elisabete de (2011) “Os Microplanos de Montez Magno e os inframinces”
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3. Os inframinces e suas contribuições
Constatar a existência de operações inframince em diversas esferas nos estimula a investigar os desdobramentos do fenômeno para além do campo das artes. O Prof. João Souza Cardoso, vincula os inframinces à quarta dimensão (campo da física), ao constatar que: A quarta dimensão seria um estágio mais complexo que o mundo tridimensional mas que, vedando-se-nos a uma experiência física directa, só poderia ser abarcado por dedução ou por imaginação. Em notas posteriores (entre 1935 e 1945), ainda relacionadas com a quarta dimensão, Duchamp refere o inframince (noção criada pelo próprio e fulcral na sua obra, que só raramente comentou) como realidade ligada às pequenas nuances surgidas entre as coisas (Cardoso, 2003). Na música, Maria Raquel S. Stolf, correlaciona o conceito de inframince a certos intervalos sonoros. Para ela: Os silêncios, no plural. Camadas de cílios, camadas de vento, camadas inframince de sons, Se mince significa algo sutil, tênue leve, muito pequeno, mas também algo de pouca importância, algo inframince é algo com espessura abaixo do sutil, abaixo do transparente, quase imperceptível, um mínimo que subsiste, que insiste (Stolf, 2008). Na arte, encontramos poéticas inframince, independentemente dos materiais utilizados, ou do grau de sofisticação com que foram construídos. São exemplos a série Droguinhas de Mira Schendell, ou A Coleta da Neblina de Brígida Baltar, as projeções solares de Olafur Eliasson, as Naturezas Mortas de Morandi, obras que se distanciam do sensacional, e evocam discrição e delicadeza, cuja essência extrapola a materialidade do suporte para atingir nuances conceituais sutis, que passam despercebidas ao observador menos atento. Conclusão
Vemos aspectos singulares nos Microplanos: a sua existência material, como visualidade, por elementos pictóricos e objetuais; a flexibilização das faces de transição, como um questionamento em torno da dimensão inframince; a natureza heterogênea do inframince atuando nos campos da arte e da ciência. Vemos outras possibilidades de ampliação da noção de inframince, à medida em que, perceber a sutil delicadeza -que reside no território do quase imperceptível, do ínfimo que é infinito - equivale a refletir no mínimo que é mais, ou nas operações que se afastam do sensacional, por isso mais intimistas. Se a existência do inframince nos faz refletir sobre a agudeza da percepção, também somos atraídos a pensar no seu contrário, ou seja, no olhar desatento da maioria, sobrecarregado pela excessiva sobreposição de informações superfi-