As intervenções da arte contemporânea no espaço público e suas relações com o contexto do lugar implicam questionamentos sobre os limites entre os territórios que pertencem ao que é público em oposição ao que é privado. No entanto, diante dos problemas das grandes cidades, todos estamos sendo constantemente observados e vigiados pelas redes invisíveis das tecnologias atuais. Nesse sentido, diversas ações artísticas, em suas diferenças e contra-
Revista :Estúdio. ISSN 1647-6158. Vol.2 (3): 280-286.
Conclusão
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com o intuito de apresentá-los como objetos de arte. O primeiro Observatório de Pássaros (Figura 3), foi apresentado em um local destinado para exposições de arte e, o segundo Observatório 4SGP, é um desdobramento do primeiro, e foi inserido, temporariamente, no espaço urbano. O Observatório de Pássaros possui uma porta e aberturas (janelas), que induzem o espectador a curiosidade de entrar. O que é encontrado nesse interior? São desenhos de diferentes espécies de pássaros, os quais instigam sobre o seu significado de estarem ali. E, na bancada diante da abertura (janela) são disponibilizados alguns binóculos, despertando o desejo de observar e espiar o entorno da obra. O Observatório 4SGP (Figura 4), foi projetado e construído durante a estada em Paris, como artista residente do SAM Art Projects (janeiro – junho, 2010). Neste observatório, além dos binóculos, encontramos uma ambientação sonora que reproduz sons de pássaros da América do Sul em quadrifonia, proporcionando a sensação de estarmos em uma floresta tropical. Os Observatórios, ao serem descontextualizados, provocam uma certa ambiguidade que tensionam os sentidos da obra: quem e o que afinal é observado ou vigiado? O primeiro embate com a obra acontece com a inserção desse objeto ‘estranho’ num espaço destinado a abrigar obras de arte. Por outro lado, o espectador, ao explorar o seu espaço interior, também é instigado a olhar para fora, colocando-o em uma posição de observar ou vigiar o seu entorno como os binóculos. Simultaneamente, os Observatórios, em exposição, são acompanhados de imagens em situação de projeção, as quais são oriundas dos arquivos de outras produções da artista. Essas imagens projetadas sobre um espaço arquitetônico próximo a obra, novamente capturam o olhar espectador. Segundo Zielinsky (2009: 12), “os desdobramentos que a obra evoca, de um estatuto a outro, ativa-se o lugar como campo de estranhamento. Provoca um estado tenso e de aguardo, no qual se indagam complexas interações entre as coisas e os seus contextos.” O cruzamento de imagens cria sobreposições nestas projeções noturnas, provocando no olhar do espectador tensões perceptivas entre o que é objeto real e o que é transitório. Nos Observatórios ocorre a interação da obra com o contexto destinado a abrigar obras de arte, ou a sua exposição temporária num espaço externo onde o espectador se depara com um objeto, no mínimo, inusitado.