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:ESTÚDIO 3

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278 Alvelos, Heitor (2011) “Reciprocidade” Revista :Estúdio. ISSN 1647-6158. Vol.2 (3): 278-279.

Reciprocidade Reciprocity Heitor Alvelos conselho editorial

A produção artística desde sempre admitiu a possibilidade de reciprocidade, e sempre dela se alimentou, mesmo que discretamente: o objecto de arte revela-se, e ele próprio também se alimenta na medida do investimento que sobre ele é depositado. Isto mesmo se reconhece numa dimensão quantitativa (ou pelo menos quantificável), por exemplo, na possibilidade de averiguação do tempo presencial de um visitante de um museu; mas de igual forma é reconhecível um investimento afectivo que se pode traduzir em relações de grande e gradual profundidade e longevidade. No entanto, o paradigma segundo o qual a criação artística estaria no centro dessas relações, quer fossem de veneração, interrogação ou simples permeabilidade, parece ele próprio já não se satisfazer com a assimetria que reside na raiz do seu pressuposto. Em particular porque observamos com acuidade acrescida duas evidências que marcam a contemporaneidade: por um lado, a enorme abertura, inesperada na sua escala, à agora evidência de que todo o ser humano é potencial produtor de matéria estética, ou seja, potencial produtor de arte; e por outro lado, a gradual evidência de que a arte pode ela mesma constituir-se como território de conhecimento e comunicabilidade. Que poderá significar esta profunda re-orientação na geometria do consumo e da fruição estética? Antes de mais, que a criação artística deixa de ser subsidiária. A criação artística emancipa-se, não só do território semântico que lhe fora confiado, refém da subjectividade, mas, de modo provavelmente mais decisivo, emancipa-se em cada uma das suas criações, tanto entre si mesmas, como em todo o espectro das suas relações. À perda do original (em quase tudo o que nesta palavra se pode conter) corresponde a possibilidade, infinita e infinitamente dinâmica, de uma paridade irredutível entre citação e citado na produção de conhecimento que se eleva perante, e a partir, de ambos. Isto se reconhece na comunicação (de José Luiz Crespo) que desenvolve pensamento sobre a obra de Román Hernández, dela resgatando não a enunciação da imponderabilidade e do enigma, mas sim a comunicação da noção de “proporção” por via de um léxico específico, agora equacionado como universalizável; reconhece-se de igual forma no assumido “ressignificar” da obra de Elaine


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