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:ESTÚDIO 3

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garantias sobre o que sucederá ou dos deslocamentos provocados pela inserção destes dispositivos que emerge a força do trabalho.

Revista :Estúdio. ISSN 1647-6158. Vol.2 (3): 270-276.

Estes trabalhos de Paulo Damé já haviam sido abordados pelo viés da estética relacional, e aqui preferimos uma aproximação pelas sutilezas e pelas micropercepções deflagradas por estes dispositivos. Nossa escolha recaiu sobre o imperceptível que compõe o tênue limiar entre estar diante do objeto e não vê-lo, ou perceber algo sem saber muito bem seu significado. Perceber a boleadeira entre os demais seixos é participar de uma experiência singular que destaca o artefato de um fundo indiferenciado composto de pedras. É entrar num outro tipo de conexão, num outro tipo de fenômeno ou de acontecimento. Para José Gil (2005: 18), estes fenômenos, assim como o fenômeno atístico, se definem pela percepção de forças, através das quais “a análise do objeto e o papel da intencionalidade da consciência modificam-se” mutuamente. Podemos dizer que é também o que acontece quando nos deparamos com a Pedra 42. A própria consciência do sujeito diante dela sofre modificações durante o processo que se estabelece entre a percepção do artefato, e a busca de significados que acompanham este encontro (‘o que significam estes números?’). O imperceptível também se manifesta na diluição do autor ou na invisibilidade da autoria, pois o espectador é convidado a ser participador, colecionador ou curador da obra. E igualmente, está presente no intervalo aberto pelo artista ao questionar o circuito dentro do qual está inserido, propondo ações inusitadas que não necessariamente serão visíveis. O imperceptível pode ainda estar permeando estas ligações que não diferenciam arte e vida, as ações clandestinas e que mobilizam traços numa dinâmica que se direciona a uma movimentação a menos previsível possível. As problematizações trazidas por Basbaum (2008: 64) somam-se ao que aqui esboçamos dizer sobre as ações de Paulo Damé: instauram-se estados não-lineares de imprevisibilidade, de risco e de vulnerabilidade em “determinantes constitutivas de um dispositivo de intervenção e construção de espaços de deslocamento e atuação diante de um contexto dado.” As inserções de Damé desnaturalizam o próprio circuito da arte, deslocando e reorganizando a rede de relações que o constitui (proposta, propositor, espectador). Questionar imperceptivelmente o próprio circuito das artes, de dentro dele, é colocar-se como um artista que contantemente se transforma, se percebe e compreende a si próprio como resultado destes deslocamentos.

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3. O imperceptível: à guisa de conclusão


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