272 Pohlmann, Angela Raffin (2011) “Paulo Damé: o imperceptível em dispositivos artísticos”
Figura 1 Foto de uma pedra Boleadeira. Acervo do Laboratório de Pesquisas Arqueológicas da UFPel (Paulo Damé, 2007).
artefato arqueológico indígena, de origem guarani, impregnado de significados culturais para o povo que habitara aquela região do sul do Brasil. Este encontro imprevisto com um artefato produzido pela mão humana fez com que Damé repensasse suas táticas. As pedras adquiriram um novo sentido após aquele evento inédito; e a partir daí, Damé produziu Artefato com os seixos de sua coleção. O trabalho foi realizado como parte de um projeto maior “14 na Rua,” que consistia em trabalhos de 14 artistas divulgados através de out-doors (9m x 3m) espalhados pela cidade de Pelotas (Rio Grande do Sul, Brasil). Para este projeto, Damé fotografou um seixo no qual gravou a palavra ‘água’ em baixo relevo através de jato de areia (Figura 2 e 3). A escolha da palavra ‘água’ estava ligada à urgência de um elemento primordial ao planeta e à própria formação do seixo, modelado por abrasão entre a água do rio, a areia e outras pedras. Depois de fotografado, Artefato foi devolvido à beira do rio, pois para Damé era importante deixar em aberto a possibilidade de que outra pessoa, num dia qualquer do futuro, pudesse reencontrar aquela pedra, tal como ele, num lapso temporal, tinha encontrado a boleadeira muitos anos depois que ela havia sido deixada em algum lugar do passado. 2. Pedra 42
O espaço da cidade como suporte para inserções pode fazer com que algumas convergências deflagrem novas inquietações e sirvam como motivações para o surgimento de táticas criativas. Kinceler e Pereira (2007) comentam que as táticas propostas por Damé constituem-se num jogo desestabilizador dentro de seu processo criativo, que inclui abandonar a zona de conforto do ateliê, percorrer o espaço público, estar atento ao fluxo e ter o objeto como foco. Pedra 42 foi gravada com o mesmo processo de Artefato, usando como matriz