Num dia de verão, em 2002, dentre as pedras que havia recolhido no leito de um córrego, Damé encontrou uma pedra esférica que chamou sua atenção: não era um seixo natural, mas uma “boleadeira” (Figura 1). Tratava-se de um
Revista :Estúdio. ISSN 1647-6158. Vol.2 (3): 270-276.
1. Artefato
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público contemporâneo se desloca em múltiplas fronteiras de acordo com suas necessidades de materializar propostas que reivindiquem a utopia como possibilidade de transformação social aqui e agora.” Paulo Renato Viegas Damé (Encruzilhada do Sul, RS, 1963) é um destes artistas comprometidos e atentos com o panorama ético-estético e vislumbra o espaço público como local de atuação a ser vivenciado sem hierarquias nem normas pré-estabelecidas que possam definir a produção artística. O interesse de Paulo Damé se dirige a táticas artísticas para ‘desacelerar’ e igualmente para gerar ‘descontinuidades’ no cotidiano. Além disso, questionar as sutis articulações presentes no encontro entre a proposta, o propositor e o espectador é parte dos objetivos acionados pelos dispositivos criados por ele. Desde 1994, Paulo Damé é professor do curso de Artes Visuais da Universidade Federal de Pelotas (UFPel), e em 2007 defendeu a dissertação de mestrado Inserindo dispositivos relacionais: táticas artísticas para desacelerar no Programa de Pós-Graduação em Artes Visuais da Universidade do Estado de Santa Catarina (UDESC), na qual trata de algumas das questões que aqui serão abordadas. Para construir uma aproximação ao seu trabalho, comentaremos os projetos Artefato e Pedra 42: seixos recolhidos da beira de um rio, em cuja superfície é gravada uma palavra ou alguns dígitos, e que posteriormente são introduzidos no espaço público. A desaceleração que seus dispositivos provocam é produzida pelo intervalo que eles criam ao serem inseridos clandestinamente na realidade. Estes micro-intervalos se relacionam com ideias utilizadas por José Gil em “A imagem-nua e as pequenas percepções” (2005), pelas descontinuidades imperceptíveis de espaço/tempo geradas no fluxo das pessoas. Se, por um lado, parte da estranheza é causada pelo lugar onde a pedra é deixada, por outro lado é pelo dado cultural (o que significam estes números?) que estas táticas acionam pequenas resistências também no modo como estes encontros se manifestam. Conforme Damé (2007: 6), no lugar de espectadores, “há manipuladores, que agem direto sobre as propostas inseridas, colocando-as em outro lugar, ou recolhendo-as para si, tornando-se co-autores ou até mesmo colecionadores/curadores destes objetos.” Sem previsibilidade sobre o destino do trabalho, algumas pedras podem até mesmo ser ignoradas. Entretanto, apesar destas indeterminações, a experiência mais potente que este trabalho pode produzir são os vazios abertos no tempo e no espaço: estes intervalos no fluxo cotidiano, como sutilezas que precisam ser desveladas nas armadilhas para a percepção.