268 Canto, Fernanda Aide Seganfredo do (2011) “Memória fugaz”
se percebe exatamente quando a imagem começa a repetir-se. Diante dessas curiosas imagens, o espectador não pode manter uma atitude impassível. É por meio da ativação de suas memórias que se provocam inúmeras interpretações possíveis, todas relativas, particulares, íntimas: Íntima é a imagem porque ela faz de nossa intimidade uma potência externa a que nos submetemos passivamente: fora de nós, no recuo do mundo que ela provoca, situa-se desgarrada e brilhante, a profundidade de nossas paixões. (Blanchot, 1987: 263) Durante a apresentação da obra, percebeu-se que uma mesma imagem dispara diferentes sentidos para cada pessoa, e as interpretações do que veem são quase automáticas, construindo a leitura desse mundo audiovisual com diferentes realidades. As memórias se ativam e caem novamente em esquecimento, num vai e vem de imagens camufladas, e também de pensamentos e lembranças. Paradoxalmente, o fugaz está presente no ritmo inconstante e na instabilidade das imagens; está presente nos vazios do palimpsesto e no esquecimento dos fatos passados. Conclusão: A fugacidade da memória
O fugaz é uma percepção de difícil definição e que tampouco encontra forma ou som que o determine; trata de algo que se sente profundamente em toda a matéria e que de certa forma está marcado pelo tempo. Por mais que a mutabilidade seja percebida diferentemente em uma pedra ou um cubo de gelo, sabe-se que a alteração e o consumo existem em ambos casos. Também a memória é fugaz; nada escapa ao tempo. Sabendo disso, Di Benedictis aceita a mutabilidade existente em tudo, e faz em seu trabalho um último intento, o de cristalizar a memória por meio do palimpsesto, numa reescritura constante e marcada pela repetição. As 'experiências capturadas,’ como se referiu Sontag às fotografias, não são permanentes. As lembranças ligadas a essas imagens são mutáveis e se atualizam condicionadas pela percepção do presente e também pelas perspectivas e especulações sobre o futuro. Para o artista, nesse mundo empírico a informação não passa por um processo lógico racional, pois nesse nível de pensamento a compreensão é reduzida. A experiência se aprofunda, se vive através dos sentidos: “É vazio, para a compreensão num plano mental. É informação a qual accedemos sem um processo lógico linear. Se parece mais a um movimento circular” (comunicação pessoal, 29 Set. 2010). Essa luta entre mental linear e percepção circular é a grande frustração que configura a fugacidade da memória. Javier conclui sobre seu projeto que: