266 Canto, Fernanda Aide Seganfredo do (2011) “Memória fugaz”
filme ou armazenada em um dispositivo” (Javier Di Benedictis, comunicação pessoal, 29 Set. 2010). Tomar imagens de entes e lugares queridos como intento de preservação da memória é algo fascinante, que tem sido feito desde o invento da fotografia. Para Sontag (2006: 16), “[…] as fotografias são talvez os objetos mais misteriosos que constituem, e densificam, o ambiente que reconhecemos como moderno. As fotografias são, em efeito, experiência capturada e a câmera é a arma ideal da consciência em seu ávido desejo.” 2. Palimpsesto
O termo palimpsesto significa 'gravado novamente'. Trata-se de um manuscrito antigo que tenha sido reutilizado como uma nova escritura, conservando os rastros da escrita anterior. Com o passo do tempo, torna-se impossível saber a ordem das camadas, e a interação que se produz entre elas é totalmente acidental. A Figura 2 é um exemplo de palimpsesto, um manuscrito da Bíblia Grega escrita no séc. V que foi superposto por outras escrituras. Para o artista, o uso do palimpsesto somado ao found-footage adquire um caráter especial, que auxilia o espectador a reconhecer e aceitar as imagens como parte de sua própria lembrança ou sonho: O palimpsesto é um dispositivo que nos permite aceder ao fugaz ou às marcas do que ainda não desapareceu, mas que não por isso seja imutável. A partir desta relação, é possível entender as pessoas como palimpsestos, nos quais a informação simultânea que recebem e articulam, se reestrutura de acordo a certos conceitos ou memórias anteriores que se interrelacionan no território da percepção. Assim se producem novos sentidos, que sempre emanam de uma experiência anterior (Di Benedictis, 29 Set. 2010). Para aceder à memória não é necessário demasiada informação visual. Os palimpsestos de Bosque: Playa: Danza são formados por imagens pouco nítidas, com ações curtas de no máximo 3 segundos de duração, e que parecem repetir-se ciclicamente. O resultado desse esquema falsamente circular termina por gerar novos territórios e interrelações, operações mentais realizadas pelo próprio espectador, que por meio da visualização repetida da imagem, cristaliza sua lembrança, num sistema reconhecível e previsível, como se, à metade do vídeo, passasse por um déjà vu. “Embora o palimpsesto seja um dispositivo de ordem espacial, material, o tempo funciona como energia estruturadora da informação” (Di Benedictis, 29 Set. 2009). Na Figura 3, vê-se uma menina que caminha e passa por detrás de uma árvore. Quando ela volta a reaparecer, sua imagem se repete. Pode-se notar que os frames marcados com os números 1 e 2, 11 e 12 são correspondentes. Ao analisar a imagem congelada, como está demonstrada aqui, o looping é evidente, contudo, no vídeo em movimento não