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A materialidade pouco estável dessa obra, devido às intervenções por meio de pintura e numerosos escaneamentos digitais, faz com que as imagens se tornem borrosas, pouco nítidas, como muitas vezes também são as lembranças e os sonhos. Neste artigo, pretende-se analisar dois recursos principais revelados na obra de Di Benedictis: found-footage, isto é, o trabalho com material encontrado; e o palimpsesto formado pelas diversas camadas que compõem o vídeo. 1. Found-footage
Considerado atualmente como um gênero cinematográfico de vanguarda, no found-footage o artista realiza uma edição de imagens a partir de um vídeo que tenha sido gravado como registro pessoal. Trata-se de um gênero que apenas existe devido aos avanços tecnológicos recentes, que possibilitaram a aquisição de câmeras de vídeo de pequeno formato e com preço acessível destinadas ao público amador. No found-footage, o ponto de vista da câmera é geralmente subjetivo, no qual a pessoa que realiza a filmagem está fora de quadro e é identificado pelos outros personagens, interactuando com o grupo e seu entorno. O narrador em primeira pessoa experimenta com seus próprios sentidos tudo que sucede ao seu redor, podendo inclusive fazer comentários pessoais ao longo da filmagem ou dialogar com os outros personagens. Esse ponto de vista interno proporciona ao espectador uma sensação de intimidade e participação no relato. A figura a seguir (Figura 1) mostra três frames que fazem parte da obra de Di Benedictis. Neles, se vê a silhueta de uma pessoa que parece abanar para a câmera. Infelizmente, sem o movimento do vídeo é mais difícil compreender essa ação e sentir sua força. Di Benedictis faz uso do found-footage justamente por essa possibilidade de trabalhar a nível da pele. De acordo com o artista, o fato de fotografar ou filmar cenas cotidianas para sua posterior rememoração permitem cristalizar certa informação material desses momentos, como se o objeto fílmico guardasse a essência daquilo que foi filmado. “Esta informação sem dúvida é luz. Luz que foi refletida por todos os objetos dentro do espectro de uma lente e impressa num
Revista :Estúdio. ISSN 1647-6158. Vol.2 (3): 264-269.
Figura 1 Frames de Bosque: Playa: Danza de Javier Di Benedictis (2010). Montagem própria.