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:ESTÚDIO 3

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260 Matos, Sara Antónia (2011) “Tela Cinematográfica"

os ocos que abriu, os vazios que deixou por preencher. É neste interstício que Fernanda Fragateiro coloca o habitante do espaço. As suas inscrições verbais reenviam e reinvestem o interior da representação, ao mesmo tempo que derramam a linguagem no contexto natural envolvente. E surgem as paisagens interiores. As inserções verbais sobre as paredes retêm a atenção do espectador, solicitando-lhe a estruturação de uma representação que pode não ser já a do mundo envolvente, mas de uma diegese mais global onde o eu e o outro, o eu e o mundo, se agregam. Aos cientistas que trabalham no Centro, a sua intervenção pode relembrar que na decorrência das investigações exactas, a estética tem uma parcela a revelar, um contributo que eventualmente escapa às perícias da lógica científica, sendo talvez nessa fracção que a estética se afirma como forma de conhecimento. Que contributo traz então a estética, todo o envolvimento criativo dos arquitectos e artistas, à actividade científica e em particular ao lugar? Como podem complementar-se (estética e ciência)? Transformando o conhecimento científico em diferentes tipologias de expressão, conferindo-lhe criatividade e clareza, a arte pode desconstruir a acepção geral de que a ciência é acessível apenas a investigadores e académicos. É importante esclarecer ainda que Fernanda Fragateiro participou na concepção do projecto expositivo do complexo, definindo-o como um arquivo em construção. Deste modo, o conjunto formado pelo projecto arquitectónico, pela intervenção plástica e pela actividade científica desenvolvida pelo Centro de Estudos (da Avifauna Ibérica) ali radicado, encontra o seu correlato vivo num programa demarcado, desde o seu início, pela premissa laboratorial. O que habita este complexo é a vida. A vida, escorregando inexoravelmente entre as imagens e aquilo que elas não podem captar, deslizando entre o voo das aves e os vestígios que os seus restos mortais deixam nos arquivos da Estação. O espaço da arte é neste sentido um espaço do projecto, que pensa a obra como dispositivo de mediação com a realidade. Ao redefinir-se em relação a um espaço, a arte procura reorganiza-lo e instaurar nele outras possibilidades de vivência. Nesse sentido, a obra não é prescritiva porque o horizonte de expectativas que desencadeia pertence à experiência do espectador, àquilo que consegue potenciar. Entre o impulso e a acção, a obra funciona como um gatilho accionador de reconhecimentos, ligações, associações, exercícios. A obra desencadeia um processo de reenvios entre habitante e o espaço que habita, uma interlocução a partir da qual se geram as representações. Constrói-se assim um campo performativo, onde a experiência estética tem consequências nos modos de perceber, sentir e pensar a realidade, aquilo a que Jacques Rancière nomeou como sendo o lado político da estética. Segundo o mesmo, a estética participa nos modos de distribuição sensível de uma sociedade sendo nessa distribuição que está envolvida a sua componente política (Rancière, 2000). A estética pos-


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