259 Revista :Estúdio. ISSN 1647-6158. Vol.2 (3): 258-263.
(Fig. 1), projecto arquitectónico de João Maria Trindade, transforma a contemplação em actividade não-passiva, a observação em caminhada e o espectador num habitante do espaço. A artista seleccionou frases de autores (Bernardo Soares, Maria Gabriela Llansol, Gonçalo M. Tavares, entre outros) que inscreveu a tinta em pontos estratégicos do volume arquitectónico (Figura 2), abrindo neste um espaço semântico para a experiência do espectador. A sua intervenção plástica lida com o intervalo de sentido gerado pelo cruzamento entre a arquitectura, a linguagem verbal e o meio natural envolvente, operando nesse intervalo sem o encerrar. De facto, na parede branca, a que chamo ecrã cinematográfico de João Trindade, não há imagens possíveis. O complexo arquitectónico não se institui como um suporte para a fixação da imagem, sendo antes a estrutura a partir da qual a mesma se gera. Deste modo, a intervenção artística e o complexo arquitectónico são motores da produção da imagem. Como relembra Fernanda Fragateiro, numa das frases pintadas sobre a parede: “a paisagem não é qualquer coisa para a qual se olha, mas através da qual se vê”(Jubelin, 2006). A arquitectura funciona como dispositivo óptico, um dispositivo de emolduramento do espaço, não apenas para o olhar mas para todo o corpo. As aberturas arquitectónicas (Figura 3) operam como lentes ou membranas através das quais é possível ligar a realidade e a sua representação imagética, isto é, perceber que a paisagem é uma construção cultural. Para corroborar a proximidade entre a arte e a arquitectura, enquanto processos da construção da espacialidade, bastaria lembrar que, no âmbito do léxico arquitectónico, portas, janelas, corredores, escadarias providenciam canais de atravessamento para o corpo. Ao mesmo tempo que separam, estes elementos instalam elos de ligação entre o que está do lado de cá e do lado de lá, entre algo que ficou por dentro e algo que ficou de fora (Figura 4). É a activação do movimento que Fernanda Fragateiro insere na arquitectura através da intervenção plástica. A arquitectura possui então uma natureza háptica (Bruno, 2007), que reclama um corpo e uma experiência espacial. Esta analogia entre corpo e edifício, edifício e dispositivo da percepção, é notavelmente traduzida pela noção “promenade arquitectural” de Corbusier. Para si, a arquitectura era experienciada em movimento, através dos pés e da deslocação no espaço. Também as intervenções de Fernanda Fragateiro ao longo do edifício solicitam que percorramos aquele, que sintamos as massas inerentes à estrutura do edifício, que estabeleçamos interacção entre o que as palavras sugerem, a memória convoca e a imaginação lhes sobrepõe, desconstruindo o carácter de consagração por vezes atribuído à arquitectura. Convidando o habitante para uma “viagem arquitectónica” (Bruno, 2002), a intervenção abre um intervalo, espaço que se interpõe entre o mundo e a representação. É esse espaço que permite indagar aquilo que a imagem emudeceu,