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:ESTÚDIO 3

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[…] inventar protocolos de uso para os modos de representação e as estruturas formais existentes. Se trata de tomar posse de todos os códigos da cultura, de todas as formalizações da vida cotidiana, de todas as obras do patrimônio mundial e fazê-las funcionar (Bourriaud, 2007: 14). O que é mobilizado nessa fala contribui para pensarmos as formas contemporâneas de atuação, pois esta afirmação atesta o desinteresse dos artistas para com a busca de situações novas ou mesmo puras. Há, decididamente, uma opção por práticas revisitadas, imagens já vistas e aproximações com o espaço íntimo da casa, verificadas nas imagens de Mariana. Desta forma, cercando a fotografia no âmbito de propostas artísticas contemporâneas voltadas para o universo íntimo e particular, Rouillé, propõe: Como se fosse o último lugar onde ainda pudéssemos atingir, interrogar ou simplesmente descrever o que é, o que somos, o que vivemos, o que acontece, longe do insólito, do extraordinário, naquilo “que regressa todo dia, o banal, o cotidiano, evidente, o comum, o ordinário, o infra-ordinário, o ruído de fundo, o habitual” (2009: 358). Neste caso, apresentar, através da fotografia, um repertório de imagens da vida comum, da simplicidade das rotinas diárias e dos objetos banais configura

Revista :Estúdio.ISSN 1647-6158. Vol.2 (3): 246-250.

Em confluência a este pensamento, o cotidiano íntimo e os afazeres domésticos, os quais circundam nossa convivência no interior da casa, tornam-se o vetor que liga a série Tableuax às investigações imagéticas dos holandeses do século XVII. Assim, a série de Mariana Silva da Silva, veiculada por meio da fotografia, apresenta-se como ponto de inflexão sobre as relações entre a pintura e o espaço doméstico no contexto artístico contemporâneo. No círculo restrito da residência, se aventam os traços particulares da vida diária e o apego por certas rotinas, desde o envolvimento com a limpeza dos objetos até a higiene dos cômodos, as quais são evocadas por temas da pintura de grande evidência no contexto holandês. Nessa medida, Tableaux pode ser agrupada sob o escopo contemporâneo, onde o toma-se partido do micro-espaço de convivência circunscrito na casa e no cotidiano para a elaboração de uma poética. Deslocando o foco de discussão para a contemporaneidade, atenta-se para a contextualização de Bourriaud, acerca da produção artística atual, a qual se utiliza de formas e imagens já existentes e, igualmente, de práticas e de espaços ordinários da vida:

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Devido à afeição dos holandeses pelas suas casas arrumadas e bem-cuidadas, não era de surpreender que, além dos temas bíblicos e dos retratos de família, fosse desenvolvido um gênero de pintura que lidasse com a própria casa (Zumthor, 1989: 77).


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