Tomando partido do título da série referendada aqui, recorremos às poses fixadas dos tableaux vivants (quadros vivos), os quais, segundo Baxandall (1991), referem-se a encenações não verbalizadas e sem movimento de pinturas e gravuras, muito recorrentes no século XVIII. Todavia, em ambas as imagens aqui apresentadas, ações banais e corriqueiras são destacadas pela fotografia, podendo-se estabelecer uma relação com as cenas de gênero holandesas, na medida em que exploram atividades simples e familiares. Assim, o ato de lavar roupas, registrado por Mariana, pode remeter aos nus tão caros à tradição da pintura, apesar da personagem fotografada estar cercada por uma cesta, uma pequena lixeira, algumas roupas e uma máquina de lavar roupas. Na imagem onde a personagem dedica atenção a um pedaço de papel, sentada em uma cadeira e debruçada em uma mesa, descansando sob a intensa luminosidade de uma janela, podemos retornar as cenas de leitura presentes na pintura de Vermeer. Tal luminosidade confere à fotografia certa carga pictórica que reenvia às pinturas holandesas do século XVII, entretanto, o roupão azul nos dá a real medida de temporalidade. Ou ainda, no díptico que retrata a personagem arrumando seu cabelo, temos a simplicidade de um ato cotidiano retomada na fotografia. O interessante, neste caso, é a tensão entre o passado resgatado pela imagem e os dados do universo banal de um apartamento atual. Nesse sentido, podemos partir para a definição das cenas de gênero, apontada no texto Ensaios sobre a Pintura de Denis Diderot (1993), onde o autor tece determinados recortes que nos permitem pensar a pintura de gênero como aquela relativa aos eventos triviais da vida cotidiana. Nessa medida, as cenas de gênero tiravam partido da monotonia da vida, não apelando aos grandes gestos significativos da pintura histórica, sobretudo no contexto da Holanda do século XVII, pensando especificamente nos modos de vida e na religião vigentes, naquele período (Slive, 1998: 123). O apego ao espaço doméstico e às ações cotidianas visto nas pinturas de Gabriel Metsu, Gerard ter Borch ou Vermeer, é descrito ou considerado por Zumthor como elemento gerador do apreço pela pintura de gênero e sua grande presença na Holanda do século XVII:
Revista :Estúdio.ISSN 1647-6158. Vol.2 (3): 246-250.
Diálogos entre Pintura e Fotografia
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da Silva parece encontrar descanso no interior desta lógica, na qual a artista seleciona, de seu espaço cotidiano, cenas que remetem à pintura. Assim, esta escrita configura-se como um convite que intenta construir um pensamento acerca da relação entre pintura e fotografia, abordando certas questões implicadas no procedimento de trabalho. Desta forma, duas questões colocam-se em primeiro plano: em que medida se estrutura a articulação entre as cenas de gênero da pintura e as fotografias da série Tableaux? E, de que forma as imagens da história da arte podem ativar modos operativos na constituição de imagens em âmbito atual, perpassando a poética de Mariana Silva da Silva?