230 Prieto, Margarida P. (2011) “O outro lado"
Figura 6 Carla Rebelo, Jogo de ilusões (2010), meia mesa de madeira, meio livro com desenho, espelho e foco de luz, dimensões variáveis. Colecção da artista. Fotografia da artista.
6. Jogo de ilusões
O título Jogo de ilusões apela à desmontagem de mecanismos ilusionistas. A instalação é estratégica: delimita os trajectos do observador, antecipa o gesto, os enquadramentos, coreografa movimentos. Encena-se a completude ilusória de um livro, constituído por metades distintas: uma objectual, outra especular. Espelho e livro são dispositivos essenciais (Figura 6). A artista escolhe onde e como abrir este livro, elege o que dar a ver. Pela deslocação do espectador o desenho altera-se no reflexo. Trata-se de um jogo de geometrias onde sombra, registo gráfico e reflexo interferem entre si para iludir uma metamorfose: o desenho intervencionado directamente sobre o espelho sugere uma página transparente, vertical, suspensa num folhear impossível. A ilusão escapa à lógica da completude (aparente) do livro, no limite de uma encenação em abismo que se informa no equívoco visual produzido com e pelo desenho. O livro é aqui tomado como arquétipo de visualização: no seu horizonte está um observador (não um leitor) e as páginas coladas impedem o folhear. Trata-se de uma apropriação, fragmento manipulado ao qual foi retirada a função. O pré-texto rasurado ou invisível remete-o ao anonimato de origem (intitulação, autoria e edição são tomadas de empréstimo à exposição). A única marca