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:ESTÚDIO 3

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5. Construindo-me um novo território a partir de um já conhecido

Por norma ou método é na autobiografia que a artista justifica as suas peças. Contudo, e porque todo o trabalho artístico nasce de uma compulsão, de um impulso incontrolável, há formalizações que se antecipam às referências conscientes. São peças que se impõem pela necessidade de concretização e cujas histórias ainda estão no plano do porvir, escondidas no silêncio da memória, sem verbalização ou qualquer outra manifestação que não seja a sua concretude plástica. É o caso desta peça (Figura 5) onde se dá (apenas) uma apropriação da imagética do mapa, dissociando o seu sentido visual da verificação in loco. Caminhos traçados a linha carmesim simulam rotas imaginárias, ligam fragmentos de mapas antigos e desactualizados, de onde foram suprimidas algumas indicações. Reagrupados num oceano de feltro, fogem a cartografias conhecidas, tornam-se metáfora para penínsulas imaginadas que se espraiam e articulam de desenho para desenho. Na impossibilidade de aferir (de confirmar um lugar e/ ou uma localização face ao lugar), fica a surpresa de uma cartografia do ilusório, justamente porque as condições que pré-figuram a percepção se mantêm e a memória dos processos de mapeamento, dos seus aspectos esquemáticos, que conferem condições de construção da imagem, perpassam cada desenho. Porque os processos de semelhança da metáfora se regem por uma dissemelhança adequada em direcção ao visível, cada mapa abre-se como campo para a imaginação.

Revista :Estúdio. ISSN 1647-6158. Vol.2 (3): 224-231.

Figura 5 Carla Rebelo, Construindo-me um novo território a partir de um já conhecido (2010), políptico constituído por seis dípticos, mapas de papel cosidos à máquina a linha vermelha sobre feltro branco, dimensões variáveis. Colecção particular. Fotografia da artista.


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