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:ESTÚDIO 3

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228 Prieto, Margarida P. (2011) “O outro lado"

Figura 4 Carla Rebelo, Mapas de crescimento (2010), desenho bordado a linha sobre linho e madeira, 165x100cm.Colecção da artista. Fotografia da artista.

O primeiro topos é a casa de infância, em Lisboa; os outros mapas são determinados pelas escolas frequentadas enquanto aluna e definem os percursos ampliados dentro da cidade. O bordado manual é um processo de representação lento. Possibilita um exercício de reflexão em anamnese: cada ponto é como uma passada que, num movimento, faz a transposição do hábito de passear (propício ao pensar, ao relembrar) para o desenho. As cores bordadas têm funções diferentes: o preto indica as especificidades da legenda (nomeia e identifica); o ocre define edifícios de referência ao percurso; o carmesim desenha o esquema urbano. Ao contrário dos bordados convencionais, o direito e o avesso têm igual protagonismo. O direito é o lado da regularidade, do controlo e da ordem; no avesso o ponto é irregular, o desenho inverte-se, perturba-se a leitura. O avesso é o inverso, é o inconsciente do consciente. Para aceder aos dois lados, a peça instala-se numa vitrina (Figura 4), lugar de transição com o espaço público. Direito e avesso, próprio e universal, privado e público laboram-se como actos de distanciamento e evocação (re)configurados dentro da lógica do memorial. Se o monumento celebra um acontecimento passado tornado marco histórico de comemoração, então o memorial pretende manter presente a memória de um acontecimento que não deve jamais ser repetido: é rememoração.


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