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:ESTÚDIO 3

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estético de pendor evocativo. As leis da física (sobre peso, volume, equilíbrio e quantidade) são (re)equacionadas dentro do sistema metafórico da artista: brinquedo e brincadeira convertem-se em objecto escultórico, em experiência relacional. Dois assentos estão unidos por uma estrutura em semicírculo que sugere um escadote (Figura 1). Em rigor, o ponto mais estável, que nivela os dois assentos, é o da imobilidade, absoluta e frágil. Nesta peça metaforiza-se a relação perfeita. Em equilíbrio alude-se ao (impossível) par relacional (dialogante, frontal, nivelado). Na oscilação inevitável do balouçar sucedem-se as metáforas: o desejo pela infinita estabilidade confirma a impossibilidade de reter, para sempre, a perfeição (Barthes, 1988: 258). O acesso ao outro encena-se na presença da escada que liga as duas cadeiras vazias. O vazio, indispensável para a universalidade da cena proposta, apela à identificação, por projecção, ao reconhecimento (especular?) insinuado no título. A encenação lumínica produz uma projecção de sombra: o balouço duplica-se, assombra-se, sustenta correspondências: identifica-se o eu e o outro, confirma-se que o eu se projecta no outro que, em última instância, o outro é o eu. A cena transfigura-se, completa-se pela (re)dimensão flutuante entre identidade e alteridade. 2. “(…) Sou do tamanho do que vejo e não do tamanho da minha altura”(Pessoa, 1998: 80).

A biografia da artista é o seu referencial. No mise-en-scène desta instalação, um título vem dar voz a uma cadeira. Animada, por via da linguagem (pela

Revista :Estúdio. ISSN 1647-6158. Vol.2 (3): 224-231.

Figura 1 Carla Rebelo, O outro que era eu (2010), madeira e foco de luz, 200x250x40cm. Colecção Câmara Municipal de Torres Vedras. Fotografia da artista.


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