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2. O colecionista
Para Walter Benjamin (2007: 223), o mais importante em uma coleção é que os objetos envolvidos sejam liberados de suas funções originais, para poderem assim integrar-se em um 'novo sistema histórico' criado particularmente pelo colecionador e somente por ele compreendido de todo. Muitas coleções são abertas, subjetivas e intermináveis, o que faz de seu autor um grande fisionomista de objetos faltantes inventados, ou um caçador de peças desconhecidas. Apenas ele sabe quais obras são parte da coleção, qual sua história e como se encaixam na relação com obras semelhantes. O historiador de arte Aby Warburg (1866-1929) condicionou toda sua vida a colecionar obras literárias – cerca de 60 mil volumes – que se converteu, com o tempo, em também uma coleção de imagens, organizadas em pranchas no audacioso – e não terminado – Atlas Mnemosyne (Warburg, 2010), o qual pretendia narrar a historia visual da civilização européia. A origem do termo 'atlas' guarda total relação com essa ideia de coleção abarcativa infinita, já que se trata do mitológico titã que teve como castigo suportar sobre seus hombros os pilares de toda a abóbada celeste, para continuar mantendo a terra separada dos céus. O fado de Atlas é compartilhado com todos aqueles que se propoem a realizar coleções infinitas, como é o caso de Eduardo Recife. Como é possível perceber em suas obras, a coleção de Recife não intenta organizar o mundo das imagens de acordo com seu contexto de origem, ou mesmo seu equilíbrio formal. A folha vazia funciona, em palavras de Didi-Huberman (2010: 18-19), como uma mesa, um suporte, que sempre pode ser corrigido, modificado, reiniciado. “Uma superfície de encontros e de posições passageiras […] a abertura contínua de novas possibilidades, novos encontros, novas multiplicidades, novas configurações.”
Revista :Estúdio. ISSN 1647-6158. Vol.2 (3): 213-218.
Figuras 4 e 5 Projeto do álbum Grace Jones + Hell para International Gigolo Records (Recife, 2005).