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:ESTÚDIO 3

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214 Canto, Fernanda Aide Seganfredo do (2011) “A coleção de Eduardo Recife”

corporações como The New York Times, Editora Abril, Mag Magazine, Bravo! e F/Nasca. Também destacam-se as exposições que realizou nos Estados Unidos, Bélgica, Brasil, Lituânia e México. A produção de Eduardo Recife será entendida no presente artigo como o trabalho de um verdadeiro colecionador, ao melhor estilo Atlas Mnemosyne de Aby Warburg, no qual as imagens não têm lugar fixo no tempo, e podem transitar livremente de uma prancha à outra, promovendo assim novas relações morfológicas e simbólicas. Em todas suas obras, sejam elas pessoais ou profissionais, percebe-se a marca de sua autoria. É recorrente o uso de imagens pueris, sempre com intervenções do autor por meio de rabiscos, recortes e comentários que chegam a ironizar, muitas vezes, o sentido original das imagens. Nelas, há sempre intenção de recordar uma época, evocada pela reutilização de publicidades e fotografias antigas, porém descontextualizadas, mescladas, recicladas nesse novo suporte que lhes dá, também, um novo sentido. 1. Do vintage ao kitsch

Entende-se por vintage àquelas imagens pertencentes a uma época passada, supostamente entre os anos 1910 e 1950, recordadas com certa nostalgia e charme. O vintage é uma tendência estilística encontrada em certos âmbitos da cultura posmoderna, que pode ser reconhecida tanto em fotografias, quanto em roupas, acessórios e automóveis. São objetos de design retrô, que não acompanham o desenvolvimento tecnológico e, pelo contrário, valorizam o antigo. Contudo, por mais que recorram ao passado com apreço, carecem de significado original, servindo mais que nada ao apelo estético. Cores, texturas, objetos retrô, personagens elegantes: todos esses elementos aludem ao vintage no trabalho de Recife, tanto por sua qualidade estética, quanto pelo seu carácter descontextualizado. Na Figura 1 somam-se à aparente inocência infantil elementos irônicos que ostentam a moeda simbólica do capitalismo. Em contrapartida, algumas imagens presentes nas composições de Recife são bastante peculiares, extravagantes e até mesmo estranhas ao conjunto, como é o caso dos leões da Figura 2, ou do pato negro da Figura 3, ambas as peças realizadas para um clube de golfe urbano situado em Londres. A presença dessas imagens aportam um carácter excessivo, surrealista e falso à obra, e remetem a um conceito de difícil definição, que é bastante questionado no mundo das artes plásticas, da arquitetura e do design em geral: o kitsch. O termo kitsch muitas vezes é empregado pejorativamente, considerado como um estilo estético associado a estereótipos socioculturais e a um tipo de (mau) gosto maioritário proveniente da população não erudita (a burguesia). Não é o caso dos trabalhos de Recife, que usa com consciência as imagens e seus possíveis valores simbólicos, e, longe de realizar uma 'obra kitsch', se apropria desses elementos com habilidade e distinção. De acordo com Abraham Moles:


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