A partir da conceptualização do “lugar” encena-se a instalação, concebida à priori como um conjunto relacional e dialógico que garante afinidades sem ditar sequências. Num movimento de transferência, o espaço expositivo torna-se teatral e a instalação é convocada para dentro da lógica da récita de natureza especular. A ocupação de áreas não expositivas (dentro do contexto museológico, institucional e galerístico), permite a redescoberta do “lugar,” expande o tempo de fruição e a certeza de uma memorização da experiência. Exercícios de camufla-
Revista :Estúdio. ISSN 1647-6158. Vol.2 (3): 206-212.
Conclusão
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uma árvore seca. Segundo os textos bíblicos (Génesis 2:9) a árvore da vida é uma das duas que Deus plantou no centro do jardim do paraíso, a outra é a árvore do conhecimento cujo fruto permite distinguir entre o bem e o mal. A recontextualização do momento da aparição para a realidade alentejana propõe um espinheiro como “lugar” deste aparecer. Contudo, aqui, dá-se uma substituição: o plátano ou “árvore de Hipócrates” (símbolo da vida, da pureza, da resistência e da serenidade) confirma uma analogia alegórica, adequada para suportar a aparição da figura virginal, também ela promessa de renovação e esperança. A instalação assenta em dois atopos. O primeiro, de ordem bíblica, evoca o “lugar-que-foi”, e, simultaneamente, que está no plano do porvir: o jardim do paraíso é a promessa latente que subjaz a conciliação consentida pela aparição. O segundo atopos é o momento próprio da aparição, excluído da récita retabular. De acordo com o registo biográfico, o retábulo foca os mais importantes momentos da vida de Maria. Ora, a aparição, por definição, está fora desta vida, é uma manifestação após (mas com relação biográfica) que, não tem lugar próprio para acontecer, exceptuando a indeterminada associação à copa de uma árvore (a árvore da vida, figurada por um espinheiro, na lenda e, por um plátano, na pintura). O signo “árvore” oferece-se como o topos linguístico possível para esta aparição (impossível de determinar no real) e, por cumplicidade, a imagem pictórica dispõe-se a re-presentar, a fazer a-parecer: “tal seria o primitivo da representação como efeito: presentificar o ausente, como se aquilo que revém fosse o mesmo e por vezes melhor, mais intenso, mais forte do que se fosse o mesmo” (Marin, 1993: 11). Neste sentido, a imagem participa de um trânsito com o que está ausente tornando-o presente pela representação. A aparição (ou seja, o acto de aparecer), possibilita pensar a transparência do “a” da palavra atopos. Este “a”, que determina a indeterminação do lugar, é reflexo de uma natureza extraordinária (Barthes, 1977: 48); este “a” simultaneamente anexado a “parição” e a “topos” é indicador de uma força móbil visual que corresponde ao “(…) diáfano [expressão] que designa a travessia da luz ou daquilo que se dá à luz” (Maia, 2009: 80); esse “a” é a abertura do possível no campo do impossível.