204 Barachini, Teresinha (2011) “Contraposições do performer Flávio de Carvalho”
Figura 4 Flávio de Carvalho no lançamento de New Look, em 1956. Fonte: Jacques (2004).
da linha do Equador. Para Guerrero (2010b, s/p), o New Look, de Carvalho, era o resultado de uma desconstrução, contendo no seu desenho um sofisticado processo de citações e apropriações, deflagrando um canibalismo (antropofágico) de diversos arquétipos de vestimenta do passado e, seu traje tropical se configurava transgressivo, transgênero, primitivamente moderno e igualmente funcional. Com esta performance, Flávio de Carvalho nos dá a falsa sensação de não estar caminhando em sentido contrário à multidão, porque esta é formada por executivos do centro de São Paulo, que o seguem como uma passeata e participam da ação como parte integrante de um cortejo. Mas, o estranhamento se firma no ato em si, do artista no seu discurso performático que defende a liberdade expressiva e a consciência do direito à cidadania. Flávio de Carvalho transforma o seu caminhar individual, com New Look (Figura 4), em um happening tropical. Considerações
Duas performances, dois momentos históricos brasileiros. Década de 30, a sedimentação do poder de Getúlio Vargas e década de 50, a eleição do presidente Juscelino Kubitschek com a promessa de uma modernização urbana no Brasil e a construção de Brasília. Modernidade brasileira entremeada por uma história política e religiosa, ambas protagonistas de opressões e de regimes ditatoriais. E, será no cenário urbano de São Paulo, na sua região central, de arquitetura e urbanismo ditado pelas ordens religiosas e pelo poder econômico das oligarquias, que Flávio de Carvalho irá contrapor-se com suas performances poético-políticas, aos grandes espetáculos de cunho carnavalesco, dirigidos pela ideologia vigente. Devemos lembrar que se nada garante que o vírus crítico de uma idéia vá de fato proliferar como epidemia, nem que as vitaminas do poético consigam realmente curar a anestesia ambiente. O que pode a arte é lançar o vírus do poético no ar. E o que pode a clínica é insistir na ideia de que a arte é a mais poderosa das vitaminas. E isso não é pouca coisa (Rolnik, 2009:102).