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:ESTÚDIO 3

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202 Barachini, Teresinha (2011) “Contraposições do performer Flávio de Carvalho”

Os crentes que acompanhavam o cortejo revoltaram-se com essa atitude e exigiram em altos brados que ele se descobrisse. Ele, no entanto, sorrindo para a turba, não tirou o chapéu, embora o clamor da multidão já se tivesse transformado em franca ameaça (‘Uma experiência’, Estado de São Paulo, 9 de junho de 1931). Pergunto, como um caminhar invertido, posto por uma única pessoa, pode desestabilizar tanto o coletivo e as suas premissas de alienação? Como as certezas do sentido do fluxo, por aqueles que ritualizam e legitimam, entram em colapso temporário por este pequeno ato criativo? Um ato que é expurgado do ritual violentamente a fim de manter uma ordem estabelecida anteriormente na defesa e manutenção de uma religiosidade ritualística. Pergunto até que ponto neste caminhar que enfurece o coletivo, em seu imaginário de fé, ao enfrentálos, Flávio de Carvalho os fez ponderar conscientemente sobre o próprio sentido do ritual ao qual estavam imersos, ou mesmo, agora, passados quase 80 anos, que significados são possíveis postular por este enfrentamento direto com o público? Flávio de Carvalho, em seu livro Experiência nº 2 (2001:51), irá comparar a procissão a uma parada militar, ao dizer que “ambas possuem um chefe invisível, o Cristo e a pátria. A pátria numa parada nacionalista funciona como o Cristo numa procissão.” Para ele, ambos os sistemas, religioso e político, tendem a se tornar opressores. E para romper estes processos de estagnação psicológica das multidões, se faz necessário compreender os espaços das cidades como estruturas culturais, que precisam ser transformadas constantemente através de atos criativos e críticos. É essencial promover a ruptura deste estado de anestesia coletiva dentro dos espaços urbanos, pois, segundo Carvalho (2001: 151), “é preciso alguma coisa mais que um mero boneco com um céu feito sob medida” para este 'novo' homem que vivencia uma 'nova' economia. Passados vinte e cinco anos, em 18 de outubro de 1956, Flávio de Carvalho irá realizar a performance Experiência nº3 (Figura 2 e 3), de pura irreverência, e mais uma vez, seu corpo torna-se o objeto de sua ação. Ele sai pelas ruas do centro de São Paulo, vestindo o seu New Look, um traje de verão para o novo homem dos trópicos. O modelo criado por ele consistia em: uma blusa de nylon, um saiote com pregas, meia-arrastão, sandálias de couro e um chapéu transparente, em uma clara referência ao New Look feminino de Christian Dior. Em um dos seus artigos publicados no Diário de São Paulo, no mesmo ano, Flávio de Carvalho irá escrever no seu texto A moda e o novo homem (1956) (apud Jacques, 2005: 23), que é “a moda do traje que mais forte influência tem sobre o homem,” porque a roupa “está mais perto do seu corpo e o seu corpo continua sempre sendo a parte do mundo que mais interessa ao homem.” O seu novo traje propunha ser uma vestimenta de baixo custo para produção e mais adequado às condições culturais e climáticas para os que residem em cidades situadas abaixo


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