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[e] desvendar a alma dos crentes por meio de um reagente qualquer' a fim de deflagrar algo de inconsciente naquele coletivo. Perturbou-lhe ver uma multidão com suas 'cabeças descobertas' participarem do ritual católico como se tivessem alcançado os 'céus.' Ao narrar o início de sua experiência, ele nos diz: Tomei logo a resolução de passar em revista o cortejo, conservando o meu chapéu na cabeça e andando em direção oposta à que ele seguia para melhor observar o efeito do meu ato ímpio na fisionomia dos crentes. A minha altura, acima do normal, me tornava mais visível, destacando a minha arrogância e facilitando a tarefa de chamar a atenção (Carvalho, 2001: 16). Apesar dos pedidos para que ele se descobrisse em sinal de respeito, ele não o fez, e continuava a penetrar a procissão em sentido contrário, provocando-os à medida que os enfrentava, aumentando sobremaneira a hostilidade ao seu ato. A multidão, aos poucos, volta-se contra ele e, em coro crescente, gritam: 'Lincha!', 'Lincha...Mata...mata!! ' (Carvalho, 2001: 28-29). Para salvar-se do linchamento, precisou fugir para a Leiteria Campo Bello, na rua de São Bento, e ficar lá até a polícia resgatá-lo. Ao ser preso, ele justificou-se, dizendo que estava realizando uma 'experiência sobre a psicologia das multidões.' Em seguida foi liberado e acusado pela polícia de comunista. O jornal O Estado de São Paulo, no dia seguinte, relata: Um rapaz muito bem posto que se achava na esquina da rua Direita e praça do Patriarca, não se descobriu, conservando ostensivamente seu chapéu na cabeça.
Revista :Estúdio. ISSN 1647-6158. Vol.2 (3): 199-205.
Figura 1 Flávio de Carvalho (1931) Reprodução da capa da primeira edição do livro Experiência nº 2 elaborada por Flávio de Carvalho. Fonte: Carvalho (2001, p.1).