188 Dias, Aline Maria (2011) “Alguns cadernos de desenho”
possibilita uma leitura inequívoca, enfatizando a condição lacunar dos cadernos. Uma nota no caderno do Zé sinaliza que o sentido é sempre precário: ‘garça=vacuna. Sonhei com este significado.’ O artista destaca a potencialidade contida nos cadernos, dizendo que os compreende como um “suporte provisório de idéias. Eu vejo que tudo que está aqui, nada é acabado, é tudo um potencial. Mesmo os desenhos, é [sic] uma idéia primária de um desenho possível a ser melhor elaborado ou desenvolvido.” Neste sentido, vale citar a reflexão Agamben (2007), afirmando que uma obra vale não pelo que efetivamente contém, mas, pelo que fica em potência, pelas possibilidades que ela sabe conservar, para além do que se escreveu. Nesta perspectiva, a obra conserva uma relação de compromisso com o que está por vir (seja no próximo texto ou mesmo nos leitores), e também, com o passado, mantendo aberta a possibilidade de repetir, de retomar o que foi dito e, sobretudo, de não ser ou de ser de outra maneira. O Zé escreve: "um livro é um objeto possível de ser visitado.” As anotações pessoais e rascunhos rudimentares de idéias ainda informes fazem do caderno um espaço privado e, por isso, é nele que o artista se expõe, o que o coloca em uma relação problemática com as formas consolidadas de exposição, publicação e arquivo. O caderno não é concebido para ser manuseado pelo outro como um livro ou publicação de artista, inseridos em determinadas condições de exibição e circulação. Como então lidar com a experiência dos cadernos? Como compartilhar essa experiência? Qual é o lugar dos cadernos, considerando que sempre se mostram de forma parcial, inacabados? Considerando a riqueza e complexidade desses espaços, suponho que a insuficiência das formas pré-estabelecidas possibilite ampliar e reinventar os modos de contato com a arte. Reivindicar a diversidade de experiências de exposição em contraponto a homogeneização dos modelos dominantes (Obrist, 2006: 106). Os cadernos situam-se nas bordas do trabalho e realizam um exercício individual e silencioso de constituição de um lugar para a prática do artista. Em uma anotação, o Zé observa que o ‘artista é cúmplice da transformação.’ Neste sentido, podemos tomar emprestada a reflexão de Foucault (1995: 289) sobre os 'hypommemata,’ ou cadernos de anotações utilizados correntemente na Grécia de Platão. Segundo o autor, nos hypommemata apareciam citações, fragmentos de trabalhos, ações testemunhadas, descrições, reflexões [...] constituía uma memória material das coisas lidas, ouvidas ou pensadas - um tesouro acumulado para ser relido e para meditação posterior. Também formava uma matéria-prima sobre a qual tratados mais sistemáticos podiam ser escritos, onde eram apresentados os argumentos e as formas de lutar contra algum defeito (tal como a raiva, a inveja, a maledicência, a bajulação)