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:ESTÚDIO 3

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187 Revista :Estúdio. ISSN 1647-6158. Vol.2 (3): 184-189.

Nos cadernos do Zé, algumas notas comentam o próprio desenho, como ‘bosta de desenho’ ou ‘como é bom o grafite.’ Outras parecem se referir a acontecimentos íntimos, bilhetes sem destinatários ou resoluções pessoais. Às vezes aparecem interdições e rasuras. Olhar para estes cadernos implica pensar o desenho como rascunho, dinâmico e provisório. “Esses cadernos têm o desenho, mas outro tipo de desenho, geralmente é rascunho,” comentou o artista. ‘São rascunhos,’ ele frisou (José Antônio Lacerda, comunicação pesoal, janeiro 2009). Isso reitera a inadequação de organizar esses fragmentos na ficção de categorias. Ao contrário, a tarefa de escrever sobre os cadernos rapidamente nos induz à criação de listas, inventários que indicam a impossibilidade de resumir, abreviar ou sistematizar os desenhos e anotações sem esmagar sua espessura e singularidade. A concentração de diferentes textos e imagens, coexistindo no mesmo espaço, conduzem apenas a uma aproximação provisória e imprecisa do que constitui um caderno de desenho. Não há categorias fixas, tipologias nem hierarquias, os cadernos justapõem experiências diversas, simultâneas, fragmentadas. E assim, instauram um espaço singular, permeável e indissociável das suas circunstâncias temporais e de uso. Os cadernos são usados, se gastam, acabam e, assim, estabelecem uma relação singular com o sujeito que os protagoniza. Considerando que os cadernos são espaços de experiências, podemos tomar emprestada a reflexão de Shoshana Felman sobre o testemunho de experiências traumáticas. Felman (2000, :18) afirma que o testemunho se configura como uma prática discursiva diferenciada, que compreende realizar um ato de fala ao invés de, simplesmente, formular um enunciado. A autora acrescenta que, aquele que fala, testemunha algo que continua a lhe escapar, inacessível para o próprio narrador. Dessa forma, não se trata de uma 'modalidade de enunciado' sobre algo, concebido a priori, anterior ao processo de expressão, mas de uma 'modalidade de acesso à experiência' (Felman, 2000: 27). Diferente de um diário, por exemplo, os cadernos não articulam uma enunciação clara, posterior a experiência vivida que o sujeito pretende registrar e/ou analisar. Não aparece, por exemplo, 'hoje fiz compras,’ mas apenas as anotações soltas do que supomos ser uma lista de compras. Palavras anotadas rapidamente e que permanecem nos cadernos como um resíduo, inteiramente desnecessárias agora, mas que fizeram sentido no seu contexto de uso. Podemos pensar que os cadernos comportam um sentido residual do processo de trabalho e do cotidiano do artista, misturando-os. Além disso, a repetição de algumas frases, os endereçamentos velados, as citações, o uso de recursos expressivos diferentes e a justaposição de vários referenciais, potencializam indeterminações, criando instabilidades no discurso. ‘Aceitar certos limites da comunicabilidade,’ é o que anota o artista. A incerteza constituinte da arte e a disjunção própria da linguagem, im-


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