185 Revista :Estúdio. ISSN 1647-6158. Vol.2 (3): 184-189.
resultou no desenvolvimento do projeto de pesquisa cadernos de desenho. Os cadernos, estes blocos de folhas refiladas e agrupadas sequencialmente, são, paradoxalmente, espaços de uma complexa e desordenada multiplicidade (Figuras 1 e 2). Os cadernos do Zé, especificamente, possuem desde sofisticados desenhos até as anotações mais banais da vida prática, como listas de compras, contas e números de telefones. As tentativas de classificar seus cadernos e estabelecer tipologias se revelam tortuosas. São muitos os desenhos dos cadernos, realizados com variados recursos gráficos. Repetidas vezes aparecem estudos de formas e projetos, embora o artista conte que não costuma recorrer aos cadernos na hora de executar os trabalhos. Aparecem fragmentos de corpos, mãos, gatos, um hamster morto, rabos de baleia saindo da água, um cachorro. Desenhos de pessoas voando, colegas de aula, professores, um playmobil, uma mulher dormindo. E também paisagens, notações de equinócios, aglomeração de carros. Desenhos esquemáticos da estrutura de um chassi, equipamentos, plantas de casas, detalhes construtivos de um forno, de um telhado. E junto aos desenhos, uma outra diversidade de anotações: lista com os pontos com infiltração e goteiras na casa da avó, perguntas a fazer antes de comprar um carro, referências de livros, filmes, desenhos de trabalhos de outros artistas, coisas para levar, preços de passagens, mapas de como chegar em um lugar, diálogos, notícias da tv, a instituição do dia do queijo ou da formiga ou do pobre, memórias de uma viagem, de um dia jogando fliperama com fichas de 25 centavos, o dia em que a Graziele nasceu, o dia em que o Juca morreu, datas, compromissos, a lembrança do teletransporte usando o abajur da mãe quando criança, um desenho reencontrado, uma legenda que indica em um quadrado a cor azul. Nos cadernos há formas singulares de ocupar a página (tirando partido das escalas, do vazio ou concentrando e sobrepondo desenhos, por exemplo), mostrando que existe um uso espacial da folha, concebendo o cadernos como um local específico de intervenção do artista. Aparecem muitos esquemas gráficos cujos elementos são articulados com setas de múltiplos sentidos, mostrando encadeamentos, fluxos e circuitos. E vemos também muitos desenhos de pequenas formas volumétricas, feitos em toda a parte e que não representam nada. Estes desenhos, assim como a lógica potencial dos projetos não realizados, pedem que se evite uma leitura causal, linear ou evolutiva entre estudo/projeto e obra 'pronta.’ Nos cadernos é evidente a invalidade dessa lógica, assim como são problemáticas as separações convencionais entre os documentos de processo e o trabalho do artista. Considerando que as práticas artísticas contemporâneas não estão circunscritas aos modelos de exposição tradicionais, os documentos e registros dos artistas não são apenas recursos secundários para 'compreender' a obra, mas índices que apresentam e potencializam os efeitos de experiências artísticas inacessíveis material ou temporalmente.