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:ESTÚDIO 3

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180 Cordeiro, Filipa Eusébio Vieira (2011) “Cyprien Gaillard e a arqueologia do futuro”

uma cidade exige um esforço anti-natural que contrarie o processo através do qual ela regressa a uma primordial horizontalidade. A transformação produz ruínas, “monumentos não intencionais à natureza fugaz de tudo, e aos poderes limitados do homem” (Sloint, 2006: 136). Este processo é evidenciado na escultura em negativo Dunepark – a escavação de um bunker da 2ª Guerra Mundial soterrado, em Scheveningen, na Holanda. O bunker torna-se objecto arqueológico que aflora no meio da cidade, signo cristalizado da ruína em potência imanente em cada um dos recentes edifícios seus vizinhos. A série Geographical Analogies (2006) (Figura 1) motiva igual reflexão neste âmbito. Em diversas polaroids dispostas em losango, convivem lado a lado ruínas clássicas e edifícios modernistas devolutos, templos asiáticos, letreiros néon ou graffiti. As imagens são organizadas segundo similaridades visuais, evidenciando-se a efemeridade de todas as construções. Este aspecto é reforçado pelo medium que suporta as imagens – as fotografias polaroid, apesar de conservadas em vitrinas, sofrem uma degradação química e, tal como as ruínas que mostram, deterioram-se e aproximam-se a cada momento de se tornar significantes irreconhecíveis. Outro elemento paradigmático desta obra é o nivelamento que opera sobre todas as realidades apresentadas, reduzindo-as a imagens. Esta parece ser a condição essencial à transformação de qualquer coisa numa ruína (Canogar, 2006: 43) – a recessão do real para a representação – domínio expurgado de profundidade e de história, em que uma imagem é permutável por qualquer outra. Em várias das suas obras Cyprien Gaillard torna evidente esta operação simbólica através da qual o desastre e o abandono são transformados em objectos de fruição estética (Olivares, 2006: 20), num fluxo de imagens em que já pereceu a hierarquia que antes opunha o real ao ficcionado. De facto, a obra de Gaillard põe em evidência a materialização das imagens no mundo físico, e mostra as consequências que este deslocamento opera na vivência colectiva. Esta ideia é teorizada por Guy Debord em A Sociedade do Espectáculo. Debord define o “espectáculo” como uma falsa consciência colectiva de unidade (vivência de indivíduo para indivíduo), que na verdade é fragmentada (uma vivência unilateral que vai do domínio do espectáculo para cada indivíduo, isolado). O espectáculo é, pois, um modo de (des)conexão social, de que as imagens são elemento mediador (Debord, 1967: 7). Neste sistema em que tudo é reduzido ao seu valor de troca, também a história é transformada num produto. Esta operação é vital ao sistema – apenas a recessão da história para um domínio fora do real impede os indivíduos de com ela dialogarem, garantindo assim a aceitação passiva (da falta de realidade) da história actual (Debord, 1967: 90). O passado é empobrecido na sua essência, e trocado pela experiência do passado que o espectáculo oferece. O filme Cities of Gold and Mirrors (2009) (Figura 2) mostra um grupo de frat boys americanos de férias na Riviera mexicana, bebendo por entre as ruínas


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