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:ESTÚDIO 3

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161 Revista :Estúdio. ISSN 1647-6158. Vol.2 (3): 158-162.

“Teatro da Morte” carregam em si uma forte sensação de reminiscência. “A Classe Morta,” de 1975, e “Que morram os artistas,” de 1985, são grandes exemplos desse fenômeno. No primeiro espetáculo, logo em seu início, somos surpreendidos por uma entrada impressionante de um coro de adultos e idosos que carregam consigo os manequins de sua infância, ou seja, bonecos do tamanho de crianças reais. Homens, manequins e outros objetos cênicos se fundem nas figuras que, em meio a movimentos repetitivos, se apresentam numa espécie de valsa ao redor de um conjunto de carteiras escolares. Ao final do som da valsa que de fato acompanha a cena, eles abandonam seus bonecos, o eu-lembrança de cada um, para sentarem-se nas carteiras e começarem a assistir uma aula. Em “Que morram os artistas,” a estrutura das figuras que se apresentam em roda também se faz presente. Uma cena exemplar da sensação de reminiscência surge, entretanto, com a entrada de um menino vestindo roupas militares, que pedala uma espécie de carrinho, enquanto é seguido por um exército fantasma – atores pálidos, de olhos arregalados, que marcham em solavancos. Após uma primeira apresentação das figuras, eles abrem alas para a entrada do general, que cavalga um manequim de carcaça de cavalo. A alusão direta à infância passada, ao envelhecimento e por fim à morte é manipulada por Kantor de modo que a memória se torne um elemento fundamental de seu teatro. Sem representar situações que narram a passagem do tempo, Kantor trabalha antes a construção de imagens autônomas que trazem à tona cenas de uma memória ora coletiva ora pessoal. Assim, entre vários restos e adeus, as figuras cênicas do Teatro da Morte são apresentadas como que resgatadas do passado e reanimadas para uma segunda vida – ou seria uma segunda morte? – sem obter com isso chances de uma redenção. E é justamente dessa impossibilidade que provém a necessidade de sua semelhança com a marionete, a sua necessidade de permanecer na morte estando ainda vivas. A preservação da sensação de reminiscência e morte instaurada nos espetáculos de Tadeusz Kantor deve-se também a uma estrutura formal que se encontra nos dois exemplos acima citados: a insistência da repetição. A apresentação em roda ou ciranda do coro de atores possibilita que o espectador se depare repetidas vezes com cada figura, trazendo a sensação de eterno retorno e evocação ao passado. Em uma esfera mais particular, cada ator também realiza movimentos e ações repetitivas, como por exemplo, cantar um único trecho de uma música, espancar o chão com uma cinta, manipular uma adaptação de bicicleta infantil, entre muitos outros. Remetendo-nos a uma espécie de procissão do mundo dos mortos, as cenas se configuram como imagens que se fazem, desfazem e refazem no palco. Como episódios autônomos que se sobrepõem recusando-se a representar um


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